O sentimento que fica é que Eli Roth jogou pelo seguro e que o filme poderia ser muito melhor do que aquilo que realmente é.

O sentimento que fica é que Eli Roth jogou pelo seguro e que o filme poderia ser muito melhor do que aquilo que realmente é.

2018
Comédia, Família, Fantasia
de Eli Roth, com Jack Black, Cate Blanchett, Owen Vaccaro, Kyle MacLachlan e Sunny Suljic


Eli Roth é conhecido na sua carreira de realização por executar projectos de torture porn (sub-categoria no género de terror caracterizada por muito sangue e violência extrema, com o intuito de agradar a audiência através da representação de tortura), com filmes como Cabin Fever (2002), Hostel (2005) e The Green Inferno (2013), mas com The House With a Clock in Its Walls, prova ser adepto de outros tipos de terror.

Aqui, Roth aventura-se em algo para a audiência pré-adolescente cheio de magia e monstros, com um argumento adaptado por Eric Kripke de um livro de fantasia para crianças, publicado em 1973 pelo escritor americano John Bellairs. The House With a Clock in Its Walls é um filme de terror “amigável”, adequado para uma visualização em família – no Halloween seria uma boa opção – com um estilo aproximado a filmes como The Addams Family (1991), Hocus Pocus (1993), Casper (1995), The Hounted Mansion (2003) ou até o mais recente exemplo, Goosebumps (2016).

The House With a Clock in Its Walls leva-nos aos anos ’50 para nos contar a história de Lewis (Owen Vaccaro), um rapaz desajustado de 10 anos cujos pais morreram recentemente num acidente de carro. O órfão tem de se mudar para New Zebedee, no Estado do Michigan, onde irá ser acolhido pelo seu tio excêntrico Jonathan (Jack Black), a única família que o jovem tem. A abordagem do tio Jonathan à parentalidade não é de todo convencional: na sua casa não há horas para ir para a cama, nem para tomar banho, nem para comer. Lewis está autorizado a comer bolachas de chocolate sempre que quiser. A única regra imposta e que NÃO PODE ser quebrada, é que Lewis está proibido de abrir um certo armário – e todos sabemos o que isso significa.

Lewis começa a desconfiar que há algo de estranho naquela casa e com o seu tio, e rapidamente descobre que Jonathan é um feiticeiro e que a mansão é encantada, contendo um relógio com um tick tock ameaçador. Escondido nas paredes, o relógio está a fazer uma contagem decrescente para o Dia do Juízo Final. Cabe a Jonathan e à sua vizinha Florence (Cate Blanchett) salvar o mundo de uma catástrofre, mas para isso é necessário encontrar o misterioso relógio e destruí-lo.

Do you hear the ticking?

Eli Roth trata o material com cuidado e a adaptação do argumento por parte do criador da série Supernatural (2005- ) não podia resultar em algo completamente horrendo, mas o fio condutor é a interpretação dos atores envolvidos. A química entre Cate Blanchett e Jack Black é satisfatória, mas individualmente o destaque vai para Blanchett, que interpreta a sua personagem com elegância e humor. A sua personagem Florence Zimmermann é a mais completa e é aquela com mais camadas de desenvolvimento e investimento emocional. Jack Black, é Jack Black. Não apresenta nada de novo, mas cumpre bem o seu papel, tendo em conta o que é exigido para este género de filmes.

O CGI é um pouco exagerado e algumas piadas são repetitivas, tornando-se cansativo depressa e até provocar um revirar de olhos. O tom é claramente para crianças, e não funciona tão bem com os adultos, apesar da mensagem estar cheia de boas intenções e ser adequada a qualquer faixa etária. The House With a Clock in Its Walls demora um pouco a ganhar ritmo e o impulso necessário para que a audiência fique interessada. O ato final é envolvente e assustador, o que compensa o facto do filme ser marcado por um início lento.

As criaturas fantásticas e os objetos inanimados a ganhar vida vão certamente encher o olho, os mais novos vão assustar-se e rir-se nas cenas que é suposto, mas se não estiverem acompanhados por uma criança não vale muito a pena colocarem The House With a Clock in Its Walls na vossa watchlist. O sentimento que fica é que Eli Roth jogou pelo seguro e que o filme poderia ser muito melhor do que aquilo que realmente é.


por Sara Ló