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Vice(2018)

Há um ano | Biografia, Comédia, Drama | 2h12min

de Adam McKay, com Christian Bale, Amy Adams, Jesse Plemons, Steve Carell e Sam Rockwell


O filme The Big Short (2015) não deixou margem para dúvidas que o realizador e argumentista Adam McKay sabe contar uma história complexa no grande ecrã. No seu mais recente esforço, McKay abandona as questões macroeconómicas para focar-se na biografia de Dick Cheney, um burocrata reservado que sorrateiramente tomou posse das decisões na Casa Branca.

Vice começa em 1963 com Cheney (Christian Bale) a ser detido por conduzir embriagado aos 22 anos. Logo a seguir vemo-lo no controlo de uma sala de comandos, momentos depois dos fatídicos atentados do dia 11/9. O tom de irreverência e reprovação do filme é estabelecido desde o início. Esta não é de todo uma biografia que admira a personagem central, ao contrário de Bohemian Rhapsody (2018), que funcionou como uma homenagem floreada à banda de rock.

Narrado por Kurt (Jesse Plemons), um veterano de guerra fictício que afirma ter uma relação única com Cheney, a história retrata cerca de 40 anos da vida do burocrata. Desde o seu casamento com Lynne Cheney (Amy Adams), que era parte romance, parte negócio, até à forma como, sem grande exposição pública, conseguiu chegar à vice-presidência dos Estados Unidos da América.

O que nos imersa imediatamente na história são as fantásticas performances de Christian Bale e Amy Adams. Bale é conhecido por ser um autêntico camaleão, mas mais que uma transformação física, os maneirismos assertivos e a voz calculista de Cheney estão no ponto. As pausas a meio das frases atribuem um tom de perigo à sua retórica. No papel secundário mais aguerrido, Adams representa a motivação do seu marido e acaba por ser a personagem mais humana de todo o filme.

À sua volta estão caricaturas de políticos que coincidem com o comentário satírico que o filme pretende atingir. Metáforas de pesca assaltam repetidamente o ecrã com uma edição precisa, simbolizando iscos, presas e caçadores de uma forma demasiado óbvia para o meu gosto. O efeito secundário de momentos como estes é que na verdade esta biografia nunca fica aborrecida, mas não atinge a excelência ou perspicácia do filme referido na primeira frase.

Sucede, contudo, em deixar claro que os feitos melindrosos de Cheney mudaram o rumo da História. E que tal só aconteceu porque o povo americano assim permitiu. Consciente de que toda a arte faz uma afirmação, McKay não esconde o que pensa de ninguém. Quem está no poder por vezes não tem condições para o exercer. Mas em democracia quem é que elege quem? Pois é.

O que Vice proporciona é uma perspetiva de como aconteceu o que aconteceu. A história é contada de forma satisfatória, ainda que lhe falte clareza. É mais uma plataforma para abrir a discussão do que uma visão histórica concisa. Algo que o próprio realizador admite no início com as palavras: "Dick Cheney é um dos líderes mais secretos da História. Mas nós fizemos o nosso melhor." Independentemente desta questão, está explicado o porquê de Christian Bale ter agradecido a inspiração a Satanás quando recebeu o Globo de Ouro de Melhor Ator.


Bernardo Freire
Outros críticos:
 Rafael Félix:   6
 Filipe Lourenço:   7