O que Kavanagh consegue com Never Grow Old é aplicar um estado de espírito amargo aos arquétipos clássicos do género

O que Kavanagh consegue com Never Grow Old é aplicar um estado de espírito amargo aos arquétipos clássicos do género

2019
Western, Thriller
De Ivan Kavanagh, com John Cusack, Emile Hirsch, Antonia Campbell-Hughes, Danny Webb e Déborah François


Tal como os musicais, a época dourada dos westerns já lá vai. É provavelmente o género mais saturado do século XX, com narrativas muito estruturadas e comentários sociais muito críticos da ascensão do império americano. No entanto, realizadores mais nostálgicos continuam a interpretar o género servindo-se das tradicionais comparações e influências. Os irmãos Coen fizeram-no recentemente com sucesso em  The Ballad of Buster Scruggs (2018) e agora é a vez de Ivan Kavanagh dar o seu contributo com Never Grow Old, um western sombrio num cenário irlandês.

O filme começa na aldeia de Garlow, relativamente perto da Califórnia, em 1849. É lá que encontramos Patrick Tate (Emile Hirsch), um couveiro e carpinteiro que está a ter dificuldades em subsistir. Com ele vive a sua linda mulher, Audrey (Déborah François), que está grávida do seu terceiro filho, assim como duas crianças. Há felicidade no seio familiar, mesmo com as restrições do pastor da aldeia (Danny Webb), que baniu o álcool e a prostituição.

A chegada de três rufias numa noite agitada redefine o futuro da aldeia então pacífica. Dutch Albert (John Cusack) vê uma oportunidade de negócio. O pecado volta a assolar a aldeia e o número de corpos inanimados não pára de aumentar. O ofício de Patrick esquenta, mas à custa de quê? Para não falar do interesse impulsivo de um dos patifes na sua mulher.

Com o filme de terror The Cannal (2014), Kavanagh provou que não tem problemas em filmar narrativas pessimistas e melancólicas. Never Grow Old, como sugere o próprio título, partilha um pouco deste molde. O comportamento vil contra a palavra de Deus, o dinheiro duvidoso de um homem honesto e bem-intencionado, a desordem pelo gozo da desordem. São algumas ideias que remontam à vida cruel e primitiva dos americanos antes da Guerra Civil.

Toda a textura do filme, desde os castanhos e cinzentos carregados até ao terreno atolado e às madeiras envelhecidas, tudo reflete o conflito interno das personagens. Cusack, no papel de antagonista principal, representa uma personagem calma e suavemente maliciosa, em que o poder de retórica é somado à imprevisibilidade da violência que a todo o momento é esperada. Em contraste está a personagem de Emile Hirsch, cuja brutalidade é apenas desencadeada em situações de desespero.

"Tudo o que vejo é medo nos teus olhos", é a provocação preferida de Dutch Albert a Patrick Tate, sentimento que eventualmente é trocado por fúria, numa das cenas mais intensas desta produção irlandesa. 

O que Kavanagh consegue com Never Grow Old é aplicar um estado de espírito amargo aos arquétipos clássicos do género. Não pretende agradar, mas sim fazer estremecer. Não pretende revolucionar, mas sim adaptar e disseminar um pouco da sua marca. A imagem final garante que o objetivo é alcançado.


por Bernardo Freire