O filme obriga-nos a fazer constantes perguntas sobre o que se está a passar.

O filme obriga-nos a fazer constantes perguntas sobre o que se está a passar.

2018
Sci-Fi, Drama, Aventura | 1h55min
de Alex Garland, com Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Tessa Thompson, Benedict Wong, Oscar Isaac e Gina Rodriguez


Há dias demo-vos a conhecer a nossa opinião sobre Ex Machina (2014), de Alex Garland. E, hoje, voltamos ao trabalho do realizador e argumentista britânico conhecido por escrever 28 Days Later (2002), Sunshine (2007), o já falado Ex Machina (2014) – que foi a sua estreia na realização – e, o filme pertencente a esta crítica: Annihilation.

Annihilation é uma adaptação do próprio Alex Garland ao primeiro livro da trilogia de Jeff VanderMeer, Southern Reach Trilogy, que conta a história de Lena (Natalie Portman), uma bióloga e ex-militar que embarca num missão para descobrir o que aconteceu ao seu marido, Kane (Oscar Isaac), dentro da Area X, onde um fenómeno desconhecido chamado The Shimmer está alojado, expandindo-se gradualmente, colocando em risco todo o planeta. Lena é acompanhada por Dra. Ventress (Jennifer Jason Leigh), psicóloga e líder da missão, Anya (Gina Rodriguez), paramédica, Josie Radek (Tessa Thompson), física e Cass Sheppard (Tuva Novotny), geóloga, durante uma missão que lhe dará como oponentes um local repleto de mutações.

É nesta missão que vamos conhecer as personagens mais em concreto e os seus respetivos arcos, com claro destaque na narrativa para Lena e a sua relação com o seu marido. E aqui, começamos logo com o pé esquerdo. Em 120 minutos, pouco ou nada sabemos sobre as restantes personagens e as suas motivações para estarem dispostas a entrar numa missão considerada (quase) suicida. Há muito pouco tempo (no meio de duas horas) dedicado ao elenco secundário, o que não só nos faz despreocupar com estas personagens como não existe suporte para a nossa protagonista ser minimamente interessante.

Continuando com o pé esquerdo: Ventress, Anya, Josie e Cass são psicóloga, paramédica, física e geóloga respetivamente… Mas podiam ser carpinteira, canalizadora, advogada e cozinheira ou outra coisa qualquer que em nada se alteraria a história. Estas personagens têm, supostamente, uma função mais especializada na missão mas o guião foge completamente a isso. O que resulta num produto final confuso, sobretudo devido à sua edição longe (mas longe, mesmo) de perfeita.

Ainda assim, embora narrativamente Annihilation seja mais evitável que outra coisa, o filme consegue oferecer a dose de sci-fi de alguma qualidade que tem vindo a ser reposta depois dos lançamentos de filmes como Arrival (2016) ou Blade Runner 2049 (2017). Aliás, se gostou de algum destes filmes poderá até vir a gostar de Annihilation, embora eu garanto que esteja muito abaixo destes dois mencionados.



No entanto, Annihilation não é só feito de pontos fracos. O filme obriga-nos a fazer constantes perguntas sobre o que se está a passar, mas propositadamente (pelo menos, algumas). Em cima disso, faz bastantes analogias e metáforas com o cancro – como doença e não só –, comparando-o à maneira como as pessoas se autodestroem. E isto, até é bastante interessante porque se nos afastarmos, em parte, do filme, a mensagem que tenta passar é realmente importante.

Visualmente o filme é muito bom, seja pelas cores que apresenta na fauna mutante ou devido a algumas sequências psicadélicas do mais elegante que se possa ter visto no cinema recentemente. Tem uma composição bastante interessante, de facto. A nível visual, apenas me incomodou o facto de haver flares em todas as cenas. Em todas, mesmo. Se em algumas cenas, ajudou… Noutras destruiu, por completo, a ambiência.

Numa altura em que muito se fala do poder feminino, Annihilation apresenta-se com um elenco esmagadoramente composto por mulheres, com algumas interpretações interessantes mas que são completamente arrasadas por Natalie Portman. Aliás, não fosse a performance de Portman e o meu veredito final poderia ser muito diferente.

Perto de finalizar, confesso que Annihilation me deixou a pensar… E se subitamente formos confrontados com algo que ameaça (e que poderá exterminar) tudo aquilo a que estamos habituados? Esta pergunta estar-se-á a referir à premissa de Annihilation ou à ameaça dos serviços de streaming (neste caso, a Netlfix, que é quem produz o filme) em relação às salas de cinema?

Por fim, Annihilation é um filme mais bonito visualmente do que outra coisa qualquer. É mais confuso que agradável e pode-se dar ao luxo de ter tido Natalie Portman a elevar um guião que carece de muita coisa. É o perfeito exemplo para um filme visualmente impressionante mas que por trás poderá não ter rigorosamente nada de interessante.


por Pedro Horta