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Once Upon a Time in... Hollywood(2019)

Há um mês | Comédia, Drama, | 2h41min

De Quentin Tarantino, com Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Margaret Qualley, Austin Butler e Dakota Fanning


Conhecendo Quentin Tarantino como conheço, a ideia do seu nono filme girar em torno dos infames assassinatos da família Manson, que marcaram Los Angeles no verão de 1969, soava a um tempo sangrento no cinema. Surpreendentemente, acaba por ser a experiência mais leve, relaxada e introspetiva que o realizador e argumentista alguma vez transportou para o grande ecrã. Com pozinhos de humor negro espalhados por toda a narrativa, que culminam num clímax bombasticamente hilariante.

A narrativa de Once Upon a Time In... Hollywood segue a estrutura, ou falta dela, que filmes como Pulp Fiction (1994) e Inglorious Basterds (2007) presentearam. Tem uma natureza mais ou menos episódica, ainda que exista um tenro fio condutor. Desta feita, seguimos a estrela de entretenimento televisivo Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e o seu duplo-agora-motorista Cliff Booth (Brad Pitt) nas suas tarefas diárias. Dalton está a ter dificuldades em gerir a sua carreira de ator, enquanto na casa ao lado, a bela e talentosa Sharon Tate (Margot Robbie) começa a saborear a sua carreira ascendente enquanto atriz de cinema ao lado do seu marido,​ Roman Polanski (Rafal Zawierucha, num papel mínimo). Nenhum dos pares sabe o que o futuro lhes reserva.

É clássico Tarantino: A direção de fotografia aliciante e precisa, as cores vibrantes e lascivas (os laranjas aqui estão incríveis), a ausência do politicamente correto, a utilização gratificante de música dos anos 60 e 70, os diálogos que deambulam em vez de correrem e a violência que, embora menos preponderante, não falta quando é chamada à festa. Não é, portanto, um filme que vá converter os corações de quem não é adepto do seu estilo único de escrita e realização.

Ainda assim, o que mais se destaca em Once Upon a Time é a total devoção à invocação de uma cidade que está prestes a ver os seus dias dourados para trás. O detalhe na direção de arte é tão obsessivo como imersivo, desde a geografia de Los Angeles até aos placares luminosos, passando pelos carros e pelos cinemas. A nostalgia sempre foi um traço reconhecido no realizador, mas aqui é onde provavelmente o seu apreço pelos westerns, atores, e uma era de glamour e produções cinematográficas é mais palpável. E pés (sim, pés).

Também impressionantes estão os três protagonistas, assim como a maioria dos intérpretes secundários. DiCaprio, Pitt e Robbie fazem jus ao cenário vivido que habitam. De certo modo, é este brilhante pedaço de casting que eleva um filme que por vezes meandra demasiado, como se não tivesse rumo. Outro problema é a falta de suspense e a inconsequência de um par de cenas, algo que é frequentemente contrabalançado com doses saudáveis de humor.

Por entre a azáfama das vidas das personagens, o trágico episódio da família Manson não fica esquecido, mas a abordagem de Tarantino é mais esperançosa do que a fatalidade que conhecemos. O que propõe um final de década mais otimista e sorridente para todos. Um gesto de estima que reflete exatamente aquilo que o realizador sente pela época que retrata: Carinho incondicional.


Bernardo Freire
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   9
 Pedro Quintão:   7
 Filipe Lourenço:   8
 Rafaela Boita:   8
 Rafael Félix:   9