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Hugo(2011)

Há um mês | Drama, Família, Fantasia, | 2h6min

de Martin Scorsese, com Asa Butterfield, Chloe Grace Moretz, Christopher Lee, Sasha Baron Cohen, Bem Kingsley


Hugo sempre foi uma incógnita para mim e talvez tenha sido por isso que nunca lhe dei atenção. O homem conhecido por matar italianos em porta-bagagens e ter sociopatas a passear por Nova-Iorque num táxi, fazer um filme para crianças sobre um puto esquisito a mexer em relógios? Na minha jovem inocência assumi só que fosse um filme meh na filmografia do Mestre Marty, e deixei-o passar. Nove anos depois lá me dignei a dar uma oportunidade ao filme baseado no livro de Brian Selznick e olhem, SURPRESA! Não sei se com o tempo não se vai tornar num dos meus filmes preferidos.

Hugo Cabret é um órfão que vive numa estação ferroviária de Paris, a cuidar dos relógios da estação durante a misteriosa ausência de seu tio. Sobrevive a surripiar comida dos vendedores e rouba peças mecânicas do proprietário de uma loja de brinquedos, Georges Melies. Na verdade, o pai de Hugo era relojoeiro e ele herdou os talentos de seu pai para tudo o que envolva rodas dentadas e parafusos. Anos antes, o pai de Hugo encontrou um pequeno homem mecânico, mas nunca conseguiram descobrir como pô-lo a funcionar. Hugo faz amizade com a afilhada de Méliès, Isabelle, e juntos eles têm uma aventura, uma que gira em torno do próprio Méliès.

Goste-se mais ou menos dos filmes de Martin Scorsese, há sempre algo comum em cada um deles. Todos têm um bocadinho muito pessoal de Marty, especialmente nestes seus últimos dez ou quinze anos, e Hugo surpreendeu-me ainda mais por ter toda um encanto que espelha na perfeição a alegria infantil que os filmes ainda trazem ao nosso velho amigo de 78 anos.

É um filme sobre arranjar algo. Colocar coisas a funcionar. Agarrar no que está partido e voltar a dar-lhe um propósito. Mas enquanto para arranjar relógios e o seu autómato, Hugo usa chaves e mecanismos, é na verdade os sonhos capturados por meio de câmaras e da criatividade mirabolante de artistas e mágicos da sétima arte que voltam a juntar as peças do que outrora esteve quebrado. É o cinema como forma de escape, de cura e de paixão como mais ninguém além de Scorsese podia capturar.

Com os contributos de um excelente elenco, mas especialmente de duas jovens interpretações nos principais papéis, Asa Butterfield e Chloe Grace Moretz oferecem a ingenuidade necessária para que deles venha todo um sentimento de constante encanto de uma criança a descobrir todo um novo mundo do outro lado de uma tela. Estes dois são o centro gravítico deste mundo em que a realidade e a ficção se misturam pela mão, não só do guião, mas de toda uma belíssima combinação de montagem, efeitos visuais e fantástica fotografia que é capaz de criar exatamente o mesmo pasmo que estes miúdos têm ao verem os filmes mudos dos anos 20 e as obras de arte e sonho que foram os trabalhos de Méliès.

Hugo foi um dos triunfos mais inesperados que podia ter tido. É um perfeito filme de família, onde os filhos podem aprender a apaixonar-se por cinema e onde os pais podem lembrar-se que o cinema tem um poder estranho de marcar e ficar connosco para sempre, se assim o permitirem. Tem muito mais de Martin Scorsese do que eu esperava, e ainda bem.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   7
 Diana Neves:   8