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Bait(2019)

Há 28 dias | Drama, | 1h29min

de Mark Jenkin, com Edward Rowe, Mary Woodvine, Simon Sheperd


As tendências de 2019: Tik-Tok, Bird Box Challenge e filmes a preto e branco, em formato estreito, ambiente marítimo e barbas repletas de testosterona. É uma comparação fácil, mas de todas as formas, inevitável. The Lighthouse (2019) e Bait partilham caraterísticas muito específicas, técnicas e contextuais, mas lidam com coisas diferentes, e até os seus próprios elementos cinematográficos são utilizados para fins totalmente distintos.

Martin é um pescador de uma vila piscatória na costa britânica, que rapidamente se vê engolida pela gigante garganta do turismo e gentrificação desmedida. Obrigado a vender o seu barco e casa dos pais a um prospetor de alojamento local e recusando-se a levar turistas em passeios na embarcação do irmão, Martin e o sobrinho sobrevivem de uma pobre pesca de rede que pouco ou nenhum lucro oferece. Com o lento agravar da situação, as tensões entre os turistas, especialmente os novos detentores da habitação, e o pescador vão chegar a um ponto que roça o explosivo.

Muito daquilo que faz o filme funcionar (ou quase totalmente) é o seu formato. Bait é filmado a 16mm, da mesma forma que os filmes mudos dos anos 20 e 30, em que todo o som foi captado e sobreposto em pós-produção. São os contrastes trazidos pelo preto e branco, pelo grão e pela fita, com os carros, a tecnologia e a comunidade desligada de si que espelham o conflito entre o Novo e o Velho que gritam do guião de Mark Jenkin. Como que uma peça de cinema de todas as formas completa e estranhamente única, visto que o formato de montagem é arcaico.

A história pouco ou nada tem de ficcional, basta olhar para o centro de Lisboa e vemos facilmente os mesmos problemas que Martin tem, em cada morador da capital que vê a sua cidade ser lentamente engolida pelo turismo ou pela praga do Alojamento Local. É este sufoco social e ansiedade urbana que Jenkin consegue captar da forma mais cinemática possível. O argumento e as personagens são tão reais como o celuloide onde estão a ser eternizados, que, com o passar do tempo, parece que vão ficando cada vez mas frenéticos e incoerentes até um clímax que quase se assemelha a um contemplar de destroços de navio espalhados numa praia. Há um portento génio na aura que se vive aqui, ao ponto de me ficar gravado na memória durante vários dias, e não há muito mais que se possa pedir de um filme.

Bait é uma pérola escondida no meio de um 2019 recheado de boas peças, mas nenhuma delas foi capaz de oferecer uma experiência tão especial como este ofereceu. Pode não ser o melhor filme do ano passado, mas não anda longe, e é facilmente um dos filmes mais memoráveis que me passou pelos olhos nos últimos tempos. Obrigatório a qualquer cinéfilo que se preze!


Rafael Félix
Outros críticos:
 Bernardo Freire:   9