Não é propriamente um filme cheio de estilo, mas consegue ser sempre competente.

Não é propriamente um filme cheio de estilo, mas consegue ser sempre competente.

2018
Comédia, Crime, Drama
de Denys Arcand, com Alexandre Landry, Rémy Girard, Maripier Morin, Maxim Roy e Louis Morissette


Filmes franco-canadianos têm sempre aquele problema, títulos em inglês ou em francês? Pois, depende, portanto, vamos aqui usar o título em inglês, que soa melhor (e não me dá tanto trabalho a escrever). The Fall of the American Empire é o fechar da trilogia temática de Denys Arcand, começada em 1986 com Le déclin de l'empire Américain (1986) e continuada já neste milénio com Les Invasions Barbares (2003). Embora não fuja às temáticas filosóficas dos filmes anteriores, neste fechar de ciclo, o realizador canadiano faz um estudo interessante sobre o sangue de uma sociedade capitalista. O verdinho. O carcanhol. Aquilo que eu já não tenho ao dia 25 de cada mês. Dinheiro.

Depois de um assalto (do qual foi apenas testemunha), Pierre-Paul (Alexandre Landry) vê-se na posse de uma quantidade obscena de dinheiro, que na verdade, pertence ao gang mais violento do Quebéc. Estranhamento bom samaritano e farto da forma como o governo (sendo que aqui tem quase uma conotação global) ignora os “menos afortunados” e “menos úteis”, e com a ajuda de um ex-condenado por lavagem de dinheiro (Rémy Girard) e uma prostituta de luxo (Maripier Morin) que acaba por ser arrastada por Pierre-Paul para a situação, vai tentar “limpar” este dinheiro e investi-lo naqueles que tão esquecidos foram por uma sociedade que os rejeitou. Tudo isto enquanto o cerco dos gangs e da polícia começa a apertar sobre os três.

Carregado por três atuações brilhantes das nossas personagens principais, The Fall of the American Empire compensa a inconsistência no tom, porque nem sempre a comédia se misturou bem com a tensão que Arcand estava a tentar dar em certas cenas, com diálogos tão interessantes e de humor tão afiado que pode passar despercebido a algumas pessoas, mas àqueles a que não passar, vão ser duas horas que vão passar a correr. Prova? Três horas de sono e visionamento às 10h30 são a receita perfeita para uma soneca indesejada. E nem sequer bocejei. Este feito devia significar mais para Arcand do que a nomeação ao Óscar que teve em 2003.

Se este filme pudesse ser descrito através de uma imagem, seria provavelmente de um senhor de 70 anos com dores nos joelhos armado com um pau de vassoura a bater num americano que já foi morto à 20 pauladas atrás. Toda a framework da história por si só já tem um cheiro a crítica social: um licenciado em Filosofia que trabalha como estafeta porque não arranja emprego, uma prostituta encostada às cordas e um ex-criminoso que tem muito mais coração do que aquilo que a sociedade quer admitir. Estes são os defensores do povo oprimido. Os excluídos. Mas além disto, todas as discussões, diálogos e conflitos parecem existir em terreno neutro, numa ambivalência moral entre condenar o facto do o dinheiro governar todos os patamares da sociedade (sempre dinheiro americano, o filme está cheio de wink winks ao centralismo de Washington) mas também apresenta uma perspetiva bastante “agradável” se é que se pode usar a expressão, em como a lavagem de dinheiro não passa de um método prático que não é necessariamente condenável mas apenas mal compreendido pela generalidade do ser humano, isto claro aos olhos dos white collars. É estranho como em diferentes pontos do filme, parece que a ideia apresentada se desmorona um bocado em si mesma, mas ainda que individualmente são todos momentos que funcionam, no seu conjunto são notáveis alguns conflitos de ideologia.

The Fall of the American Empire não é propriamente um filme cheio de estilo, mas mesmo não passado muito além da linha do medíocre, consegue ser sempre competente e mostrar aqui e ali alguns planos com um framing criativo ou close-ups em momentos estranhos. Mas não é aqui que está a força deste final de ciclo de Arcand. É no papel e na caneta. É nos diálogos e nas ideias, no humor e nas interpretações que andou a pensar durante os últimos 30 anos. E isso para mim foi mais do que suficiente para carregar os 120 minutos.


por Rafael Félix