Não é particularmente memorável, mas vai para além de um tempo divertido nos cinemas.

Não é particularmente memorável, mas vai para além de um tempo divertido nos cinemas.

2018
Animação, Aventura, Comédia | 1h36min
de Karey Kirkpatrick e Jason Reisig, com Channing Tatum, James Corden, Zendaya, Common, LeBron James e Gina Rodriguez


É curioso como o cinema de animação tem a habilidade de inverter as fábulas que todos nós conhecemos. Filmes como Hotel Transylvania (2012), onde os monstros clássicos dos anos 30' são caracterizados como criaturas amigáveis, é um exemplo claro desta subversão de expetativas. Smallfoot, da dupla de realizadores Karey Kirkpatrick e Jason Reisig, apresenta-nos o mito do Abominável Homem das Neves virado do avesso, à medida que acompanhamos um Yeti à procura de um lendário Pé Pequeno.

Esse Yeti chama-se Migo (voz de Eduardo Madeira) e vive em comunidade no topo de uma montanha rodeada por nuvens. A comunidade vive sob regras restritas e inquestionáveis, cravadas em pedra, transportadas pelo Guardião das Pedras (voz de Pedro Giesta). Certo dia, as regras são questionadas por Migo, que afirma ter visto um Pé Pequeno, algo cujas pedras explicitamente negam que existe. Expulso pelas suas crenças, Migo entra numa aventura à procura do pequeno ser.

Mas não vai sozinho. Com ele está Meechee (Ana Bacalhau), a filha do Guardião das Pedras, e um grupo de três Yetis, que são rotulados de malucos por questionarem as pedras. É uma história que corresponde à audiência mais adulta ao levantar múltiplas questões, enquanto os mais pequenos podem maravilhar-se com os traços gerais da narrativa, que são de forma geral dispostos de forma leve e acessível.

Dentro das lições de Smallfoot encontramos os perigos do autoritarismo, a aceitação da diferença e a problemática vigente das notícias falsas, assuntos que apesar de não serem transmitidos da forma mais linear para as crianças, estão bem explorados. Ao contrário das canções, que até são bem interpretadas nesta adaptação portuguesa, mas não são muito apelativas nem fáceis de lembrar. A diversificação de géneros musicais foi, no entanto, refrescante.

No que diz respeito à animação computorizada em 3D, as personagens têm a dose certa de personalização visual e as cores predominantes são o branco e o azul, de acordo com o retrato lógico de uma montanha gélida. O filme proporciona vários momentos engraçados, em parte devido à comédia visual que está bem integrada no argumento, adaptado do livro Yeti Tracks do autor Sergio Pablos.

Com algumas reminiscências do incrível Monsters, Inc (2001), Smallfoot é um filme que procura destacar as noções de integridade e espírito crítico, em vez das personagens. Não é particularmente memorável, mas vai para além de um tempo divertido nos cinemas.


por Bernardo Freire