Não é magnífico, nem sequer se aproxima da mestria de outros trabalhos de Audiard, mas é absolutamente competente em todos os campos.

Não é magnífico, nem sequer se aproxima da mestria de outros trabalhos de Audiard, mas é absolutamente competente em todos os campos.

2018
Western, Comédia | 2h1min
De Jacques Audiard com Joaquin Phoenix, John C.Reily, Riz Ahmed e Jake Gyllenhall



The Sisters Brothers é um caso que facilmente pode despertar curiosidade. Um western, um género, na sua esmagadora maioria, americano, realizado por um francês que já fez filmes em 3 línguas e em géneros que dificilmente podiam estar mais longe das “histórias de cowboys”. Mas fui sortudo o suficiente para ouvir o próprio Jacques Audiard apresentar o filme na edição deste ano do LEFFEST, um homem cheio de boa disposição e simpatia para dar e vender, portanto vou deixá-lo contextualizar a sua própria obra: “o western é só um pano de fundo, sou francês e este género não é meu, o que interessa são as personagens e não se esqueçam, isto é suposto ser uma comédia”. E é bem verdade.

Por volta de 1850, Hermann Kermit Warm (Riz Ahmed) é um “empreendedor” na área da exploração de ouro, mas com uma particularidade. Há a possibilidade de ele ter informações sobre uma forma estupidamente mais eficaz de encontrar ouro, tornando obsoletas todas as outras técnicas e revolucionando por completo um dos mercados mais importantes daquela época nos Estados Unidos. Sabendo isto uma organização “quase criminosa” (vive num limbo entre polícia e máfia) envia John Morris (Jake Gyllenhal) como batedor para encontrar Warm, e os Irmãos Sisters, Eli (John C. Reily) e Charlie (Joaquin Phoenix), para o capturar e obter a bem-dita informação dourada.

Audiard melhor que ninguém soube descrever na perfeição o seu filme. É o western menos western possível, mas ainda assim mantendo-se um western, perdoem-me as repetições. O realizador francês abandona os clichés típicos do género, apenas usando-os aqui e acolá de forma bastante ciente e bem-disposta, e dá o foco do filme às personagens e ao seu desenvolvimento ao longo da sua jornada. Cada uma das quatro personagens que referi no parágrafo acima é explorada ao máximo, principalmente nas relações entre si, esquecendo diálogo demasiadamente profundo e depressivo, e mantendo sempre um tom humoristicamente negro e leve o suficiente para nunca se tornar maçador, mas ao mesmo tempo algumas cenas mais emocionais não permitem ao espectador levar todo o filme como uma enorme brincadeira. E o trabalho de Jacques é muito este. Porque a história é aceitavelmente simples e sem grandes floreados, o conteúdo e o entretenimento do filme encontra-se nas suas personagens e nas suas próprias jornadas pessoais, e resulta a 100% nesse aspeto.

Há também um toque francês a nível visual. Os westerns têm quase uma matriz obrigatória na sua cinematografia, principalmente na sua iluminação, utilizando sempre que possível luz natural, e as vistas, imagens de planícies desertificadas vão pontificando o filme, quase sempre para mergulhar o espectador neste espírito “cowboyístico”, o melhor exemplo deste ano a seguir esta matriz é Hostiles (2018), mas para mim torna-se aborrecido ter sempre mais do mesmo em todos os filmes do género.

E não é que Audiard não utilize estes elementos, porque os usa, mas são sempre utilizados com criatividade, adicionando sempre o seu toque europeu para tornar algumas cenas muito mais interessantes do que normalmente seriam se fossem filmadas por um americano, um excelente exemplo é a cena de abertura, um tiroteio apenas iluminado através de disparos de pistola. A música já segue um pouco mais a norma do género, mas embora a composição de Alexandre Desplat não seja propriamente original na sua totalidade, é extraordinariamente competente.

E vale mesmo a pena falar das representações? Nem por isso. Joaquin Phoenix faz o que Joaquin Phoenix faz sempre e é absolutamente incrível, John C. Reilly nunca foi incompetente na sua carreira e, apesar de algumas más escolhas em papéis aqui e ali, sempre foi um ator que se entregou de alma e coração a todas as suas personagens, talvez com um carinho especial por esta, dado que ele próprio produziu o filme e pôs Audiard ao comando. Riz Ahmed faz esquecer a sua performance sem sal nenhum em Venom (2018) e Jake Gyllenhal, embora com um terrível sotaque que é irritantemente distrativo, é sólido como sempre.

Este é aquele tipo de filme que não é magnífico, nem sequer se aproxima da mestria de outros trabalhos de Audiard como Rust and Bone (2012), mas é um filme que é absolutamente competente em todos os campos, criativo a espaços e oferece uma experiência agradável que tanto pode fazer rir, como pode deixar cair aquela lágrima marota aqui e ali. Não é um trabalho que me vá deixar a pensar muito, mas também não é esquecível de maneira nenhuma. É o filme a quem a palavra "sólido" cai que nem uma luva.

por Rafael Félix