Narrativamente é brilhante, tecnicamente está no auge e emocionalmente é muito forte.

Narrativamente é brilhante, tecnicamente está no auge e emocionalmente é muito forte.

2018
Animação, Ação, Aventura | 1h57min
de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, com Shameik Moore, Jake Johnson, Hailee Steinfeld, Mahershala Ali, Brian Tyree Henry, Zoe Kravitz, Nicolas Cage, Liev Schreiber e Chris Pine


Quem é que estava à espera de um filme de animação Spider-Man? Possivelmente ninguém. A Sony Pictures depara-se com um projeto ambicioso que tem dado muito que falar. Nomeado ao Golden Globe de Melhor Filme de Animação, Spider-Man: Into the Spider-Verse é a surpresa deste final de ano. Pela primeira vez, Peter Parker não é o protagonista, em vez disso, seguimos Miles Morales, possivelmente o novo herói mais contemporâneo.

O que nos conta o filme?

Miles Morales (Shameik Moore) é um adolescente afro-americano e porto-riquenho que reside em Brooklyn. Miles esforça-se para integrar a faculdade em Manhattan. Subitamente, tudo muda na vida do rapaz, quando é picado por uma aranha radioativa, que lhe vai transmitir superpoderes. Na mesma altura, o famoso criminoso: Wilson Fisk (Liev Schreiber) desenvolveu um acelerador de partículas nuclear capaz de abrir um portal para outras dimensões. Com a ajuda do original Spider-Man (Chris Pine), Miles vai tentar salvar o mundo de perigos iminentes.

É sem dúvida umas das melhores adaptações do nosso vizinho aranhiço. É um puro filme de super-heróis que se apropria da sua própria mitologia, tentando redefinir as suas novas regras. A obra diverte-se com um meta-discurso, referindo-se às antecedentes adaptações cinematográficas – não como um Deadpool – mas sim, mais subtil. O argumento de Rodney Rothman e Phill Lord – realizador de The Lego Movie (2014) é brilhante. Pela história novata, pela construção dos novos protagonistas, da narrativa, pelo desenvolvimento de um novo herói e pelo ritmo que nos é oferecido.

A temática de novas dimensões podia ser confusa, mas novamente, o filme gere a sua complexidade e permite-nos não nos perdermos uma única vez. Existe uma intro com um estilo bastante característico para cada nova personagem correspondente a uma dimensão diferente, um background – para Peter B. Parker, Gwen Stacy (Hailee Steinfeld), Spider-Ham (John Mulaney), Peni Parker (Kimiko Glenn) e Spider-Man Noir (Nicolas Cage). É um gag que funciona, (apesar de ser repetitivo) e que nos faz perceber a motivação de cada um deles.

Sentimos uma enorme empatia pelo protagonista. Miles é o novo Spider-Man – o herói desta nova história. O seu arco narrativo é uma grande odisseia repleta de perguntas interiores e esclarece-nos sobre a definição de um verdadeiro herói. A sua relação com o seu pai Jefferson (Brian Tyree Henry) é tocante – garanto-vos que há uma cena em específico que vos farão mexer as emoções mais profundas. A química entre Miles e o seu tio Aaron (Mahershala Ali) é outro ponto que ajuda a identificar-nos com o protagonista e com as suas relações familiares. É por isso que o filme é uma surpresa – consegue transmitir emoção quando necessário e estabelece fortes relações entre todas as personagens. Não há uma que seja deixada de fora. A relação de Miles com o Peter B. Parker (Jake Johnson) é uma grande surpresa. Não vos revelo nada, para não estragar a vossa experiência.

É das melhores realizações do ano. O trio que realiza dá tudo o que tem para nos vender uma das obras mais promissoras do ano – arrisco-me a dizer que é a melhor animação do ano. Os leitores de comic books (banda desenhada) irão sentir-se no auge perante à obra. A animação funciona como uma banda desenhada na tela. Há transições que funcionam com um virar de página e detalhes que vos farão apreciar um grande trabalho detrás. Por exemplo: quando Miles pensa, aparece um balão de diálogo. Quando Miles escreve no computador, aparece o “click-clack, click-clack”. É um filme extremamente colorido – quase psicadélico – a la Speed Racer (2008). A mistura de banda desenhada, manga, stop-motion, 2D, 3D, tornando o todo numa obra inovadora e super contemporânea.

A edição e ritmo são outro ponto forte da longa-metragem. Tenho a sensação que há uma constante procura de supressão. Vão cada vez mais longe naquilo que idealizam. Várias vezes, durante uma banda desenhada, as páginas vão-se dividir em vários quadradinhos no âmbito de ilustrar uma determinada ação – o filme faz o mesmo.

A banda sonora é genial. Miles é um apreciador de música, então a obra permite-se em utilizar os seus gostos musicais para nos transmitir uma das melhores bandas sonora do ano.

O que mais dizer? Narrativamente é brilhante, tecnicamente está no auge e emocionalmente é muito forte. Foi o filme que mais me fez rir este ano. A comédia é absurda e não demonstra limites.

Miles Morales é o novo Spider-Man de 2018 e espero que resida muitos anos na tela. O trabalho da Sony é fantástico e se for para fazer filmes assim sobre o aranhiço… que continuem. Exit o péssimo Venom, queremos bons filmes. Uma sequela está a ser confirmada e o meu hype também.


por Alexandre Costa