Mowgli é um filme que não recomendaria a um público muito jovem – a típica audiência de filmes animados da Disney.

Mowgli é um filme que não recomendaria a um público muito jovem – a típica audiência de filmes animados da Disney.

2018
Aventura, Drama | 1h44min
de Andy Serkis, com Christian Bale, Rohan Chand, Cate Blanchett, Benedict Cumberbatch, Noamie Harris, Matthew Rhys e Andy Serkis


Mowgli é um projeto que estava nas gavetas da Warner Bros. desde 2012. Colaboraram com Steve Kloves – o argumentista de 7 filmes da saga Harry Potter e do primeiro Fantastic Beasts – para o papel de produção, realização e argumento. Em 2013, Kloves é anunciado na produção e a realização ficou confiada ao grande Alejandro González Iñarritu. Pouco tempo depois, o realizador mexicano abandonou a produção para se dedicar plenamente nos seus projetos: Birdman or (The Unexpected Virtue or Ignorance) (2014) e The Revenant (2015). Em fevereiro de 2014, é Ron Howard – realizador do recente Solo: A Star Wars Story (2018) – que ficou em negociações para assumir a realização. No mês seguinte foi confirmada a outro autor, precisamente a um estreante realizador, Andy Serkis.

Andy Serkis poder ser um estreante na realização, mas é um grande no outro lado da câmara. É o senhor da performance capture, com as suas interpretações de Smeagle na trilogia The Lord of the Rings (2001-2003), de Kong, em King Kong (2005) e de Caesar na trilogia The Planet of the Apes (2011-2017). Andy Serkis foi uma excelente escolha, na minha opinião. O filme não será distribuído pela Warner Bros. nas salas obscuras devido à razia no box office do concorrente, The Jungle Book (2016) de Jon Favreau, da Disney.

O que nos conta o filme? Se bem que toda a gente deve saber.

Mowgli (Rohan Chand), quando criança, é criado por um bando de lobos no coração da selva. A vida dele é focada nas aprendizagens das duras leis da selva, sob a responsabilidade do urso Baloo (Andy Serkis) e da pantera Bagheera (Christian Bale). Mowgli é aceite pelos animais e considerado como um deles. Exceto um. O terrível tigre Shere Khan (Benedict Cumberbatch) – autor da morte dos pais do rapaz. Diversos perigos aguardarão o herói, assim como a sua família de lobos e os seus amigos mais fieis.

Aviso que não gostei da Live-Action da Disney. Achei-a pouco inovadora, interessante e demasiado gentil. Esta nova adaptação do livro de Rudyard Kipling propõe-nos uma versão mais adulta, dark e realista. É um filme que não recomendaria a um público muito jovem – a típica audiência de filmes animados da Disney, por exemplo.

Andy Serkis não hesita em mostrar sangue, feridas graves e animais mortos. A sua realização é interessante. Existem diversos planos da selva que funcionam como transição entre as cenas. Não hesita em mostrar o quanto a natureza é bela e misteriosa. Usa uma fotografia luminosa e colorida que nos faz entrar no seu mundo com convicção. As cenas que ocorrem de noite são também bem filmadas e trazem um look dark ao conto. O realizador sabe do potencial do seu elenco e aproveita-o ao máximo. A performance capture é interessante no que toca em transmitir as expressões faciais dos atores, logo as suas emoções. Quando vemos Bagheera em tela, sabemos automaticamente que é Christian Bale a brilhar.

O filme não possui grande orçamento, então o CGI está longe de ser perfeito. Não é que seja péssimo, mas visualmente falando, estamos habituados a melhor. É necessário ter em conta esses pormenores, para não detestar a obra visualmente. A performance capture ajuda-nos a criar empatia pelos animais, graças às excelentes interpretações do elenco. Encontram-se também lacunas no desenvolvimento de várias personagens secundárias – sobretudo dos humanos e do caçador Lockwood (Matthew Rhys).

O elenco é de luxo. Sentimos uma empatia terrível por quase todas as personagens da longa-metragem. Bagheera sendo a minha preferida. Christian Bale faz um ótimo trabalho em transmitir amizade. Cate Blanchett é misteriosa na sua interpretação de Kaa. Andy Serkis propõe-nos um Baloo jamais visto anteriormente – não revelo, para ficarem com a surpresa. Rohan Chand tem uma boa performance em Mowgli. A sua representação faz jus ao tom do filme – é realista, humana e frágil. Há uma grande procura de identidade em relação ao protagonista – que faz passar o da Disney por um miúdo sem química.

O meu destaque vai a Benedict Cumberbatch que é arrepiante no tom do seu vilão. Shere Khan é assustador, pela sua voz – muito idêntica à do dragão Smaug em The Hobbit: The Desolation of Smaug (2013) – e pelo seu impacto visual. É grande, ocupa espaço na tela, dominando o restante elenco. Nota que há um plano semelhante de Shere Khan com um de The Lord of the Rings, com Smeagle. Achei engraçado da parte de Serkis, que aprendeu bastante com o seu mestre, Peter Jackson.

Passei um bom momento, gostei mais deste tom optado por Andy Serkis, algo mais realista e duro. Marca pontos por se afastar dos vários filmes de animação da Disney. É um filme a ver em família, com a precaução de não mostrar aos mais jovens. Não é memorável, mas poderá agradar quem procura um entretenimento.


por Alexandre Costa