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God's Own Country(2017)

Há 2 meses | Drama, Romance | 1h45min

de Francis Lee, com Josh O'Connor, Alec Secareanu, Gemma Jones e Ian Hart


O (ainda) desconhecido realizador Francis Lee escreve e realiza a sua primeira longa-metragem da sua carreira, uma obra que num prisma generalizado se designa a estabelecer-se como mais um filme LGBT semelhante a tantos outros, que optaram por seguir os mesmos moldes de Brokeback Mountain (2005). Diversas produções deste género conseguiram-se consagrar e obter alguma identidade cinematográfica, entretanto, outras não se demonstraram capazes de tal e vivem na sombra destes. Em qual dos casos God’s Own Country se insere?

 

A história foca-se essencialmente em Johnny Saxby (Josh O'Connor – The Crown – 2019-); Cinderella – 2015), um jovem agricultor britânico que divide a sua vida entre ajudar a família na sua quinta e em encontros de sexo casual com outros jovens. A monotonia presa na sua vida altera-se quando conhece Gheorghe (Alec Secareanu - Chosen – 2016), um jovem imigrante romeno que passará alguns dias na sua quinta a ajudá-lo no parto de um rebanho de ovelhas e em outras tarefas rurais. Ambos são obrigados a permanecerem algum tempo juntos numa zona remota e é nesse momento de solidão que um misto entre rivalidade e atração surgirá entre ambos.

 

Se leram o parágrafo acima, torna-se óbvio que a estrutura do argumento se assemelha quase a um remake de Brokeback Mountain (2005). A diferença direciona-se à preferência de Francis Lee revestir o seu trabalho através de diferentes camadas que nos induzem para distintas perspetivas reflexivas sobre sonhos, limitações, ambição, rotina e desejo.

 

À primeira vista, existem também diversos aspetos que nos levam a invocar Call Me by Your Name (2017), no entanto, estamos perante um caso que prefere optar por um rumo mais sombrio e menos romantizado. Johnny é um jovem sem esperança, carrancudo e de certa forma frustrado, que assistiu a todos os seus amigos a seguirem em frente com a sua vida enquanto ele é obrigado a permanecer no meio rural a ajudar a sua família, pensando que o único escape à monotonia consiste na aventura entre relações sexuais com desconhecidos. Por sua vez, o emigrante Gheorghe manifesta-se como um jovem que partiu para um país desconhecido em busca de esperança, comodidade e de uma vida minimamente feliz. Ambos são diferentes, mas possuem uma caraterística em comum que os une, a solidão.

 

É um filme monótono, mas que, ao mesmo tempo nos agarra a cada uma das personagens e nos deixa absolutamente cativados por assistir não apenas ao desenrolar do romance entre os dois, mas também à transformação na vida dos protagonistas. O espetador torna-se parte da obra ao ser permitido que nos integremos num quotidiano tão cru e melancólico, onde as relações-humanas são valorizadas e as cenas sexuais não possuem qualquer ponto de nos entregar erotismo ou prazer, apesar de conterem nudez gráfica.

 

Se a narrativa transcende aquilo que foi observado em várias obras do género, o mesmo posso indicar relativamente à componente técnica deste título. A fotografia assinada por Joshua James Richards é abismal, usa e abusa de “tons mortos” de forma a captar a natureza depressiva envolvente, e em alguns momentos contempla-nos com as mais diversas paisagens que tentam agarrar-nos e prender-nos dentro da narrativa. Apesar da ausência de música cantada ou somente de simples melodias, a banda sonora é produzida maioritariamente através de sons da natureza, o que também a ajuda na imersão do espetador.

 

E quanto ao elenco? Considerei-o fantástico, é apenas tudo o que tenho a escrever. God’s Own Country conta com interpretações fortes e naturais provenientes dos seus dois protagonistas, como também por parte de Gemma Jones (Bridget Jones’s Diary – 2001-2016; Rocketman2019) e de Ian Hart, o mítico Professor Quirrell de Harry Potter and the Philosopher’sStone (2001), que dão a pele à família de Johnny.


Mais do que um drama homossexual, é um processo refletivo sobre identidade, rotina e mudança. O ponto fraco assume-se num desfecho que não faz jus a toda a ambientação negra e crua da narrativa, mas que de certa forma é um pouco diferente daquilo que observámos em longas-metragens semelhantes. No fim, acabamos por sentir que assistimos a um filme sujo, áspero, pausado, mas magnífico, uma obra que encontra a sua beleza no feio.


Pedro Quintão
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