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Us(2019)

Há um ano | Horror, Thriller | 1h56min

de Jordan Peele, com Lupita Nyong'o, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Shahadi Wright Joseph e Evan Alex


Há dois anos atrás Jordan Peele veio abanar o mundo do terror com o seu tão aclamado Get Out (2017), levando o género de volta às cerimónias da Academia, sendo apenas o sexto filme na história a consegui-lo. Se em 2017 Get Out não me impressionou, tenho de admitir que voltar a ele em preparação para Us fez-me respeitar muito mais o trabalho de Peele como realizador e argumentista, sendo uma completa lufada de ar fresco para um género que já começava a cheirar a podre. E após ver Us, estou ainda mais impressionado.

Adelaide (Lupita Nyong’o) e Gabe Wilson (Winston Duke) estão a passar férias em Santa Cruz, Califórnia com os seus dois filhos. Uma noite, a sua casa é invadida por uma família que em (quase) tudo se assemelha à família Wilson. As motivações ou objetivos destes duplos é desconhecido, a única coisa que se sabe, é que, de alguma forma, são ligados e atraídos para os seus pares.

Há muito para apreciar em Us, tanto que se torna fácil fechar os olhos a alguns tropeções que o filme comete aqui e ali, especialmente no que toca ao argumento. Talvez precisasse de um pouco mais de contenção, porque nem tudo fica tão bem atado num lacinho bonito como deveria, alguma logística não bate bem certo, e há algumas peças que se pensarmos demais, começam a desmoronar-se.

Mas custa apontar o dedo a isto, porque se por um lado, ir mais além traz os problemas que referi anteriormente, por outro lado, é isso mesmo que torna este filme tão único. Tal como Get Out, Us passeia-se muito entre géneros, mistura a comédia com elementos de terror, mas é muito mais um thriller que outra coisa, e nunca é propriamente o tipo de filme que esperamos em nenhuma ocasião. Várias vezes disse para mim “AH então é ESTE tipo de filme”… e Jordan Peele enganou-me outra vez. E outra vez. E outra vez.

Esta mescla seria difícil de resultar sempre, e há uma cena que salta à vista em que a comédia está puro e simplesmente mal colocada, mas no geral, flui bem. Também, mal seria, sendo Peele um comediante por natureza.

Os destaques vão para Lupita Nyong’o que foi tão boa que se arrisca a ser ignorada pela Academia tal como fizeram a Toni Collete por Hereditary (2018). Este ano, para o surpreendente olho do realizador americano para criar planos que podiam ser postos em posters a cada cinco minutos num trabalho de fotografia e edição que chega a ser de cortar a respiração, e tal como em Get Out a excelente, mas mesmo, mesmo, MESMO, excelente banda sonora mais uma vez de Michael Abels que junta hip-hop, com música clássica e com um main-theme que dá arrepios pela espinha.

No entanto, muito embora as semelhanças com o seu primeiro filme sejam muitas, há uma diferença bastante particular entre os dois. Embora Us não se esconda de fazer algum comentário social, não tem nem de perto a quantidade de alegoria que teve o filme de 2017. Desta vez a ideia foi fazer um filme de terror mais conciso e por um pouco de lado os temas mais sociais, focando assim mais o elemento sobrenatural, se é que se pode chamar isso. Não que isto seja um detrimento ao seu valor, mas é algo que achei interessante referir.

Outra coisa que vale a pena salientar, é que Us tem muita carne no osso. Com isto quero dizer que é um trabalho que requer duas, três, quatro visualizações para conseguir tirar o máximo proveito, tanto dos seus temas, como da sua história ou até da sua arte. E há poucas coisas que eu goste mais do que a sensação de sair do cinema e dizer: “eu quero ver isto outra vez”.

Mais uma vez, Jordan Peele mostra-nos que é possível fazer um filme de terror sem jumpscares estúpidos, previsíveis e quase soporíferos. Mostra-nos que é possível fazer um filme e terror sem castelos escuros, cores cinzentas e espíritos que passam 90 minutos a pregar partidas a adolescentes. Mostra-nos que sabe escrever, que sabe arriscar, que sabe tirar o melhor dos seus atores e que está a fazer a sua própria cena. Jordan Peele não é o novo Hitchcock ou o novo M.Night Shaymalan. Jordan Peele é só Jordan Peele. E eu começo a adorar Jordan Peele.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Rafaela Teixeira:   8
 Pedro Quintão:   9
 Bernardo Freire:   8
 Alexandre Costa:   8
 Raquel Lopes:   7
 Rafaela Boita:   8
 Pedro Horta:   7
 Margarida Nabais:   7