Invisible, faz um pequeno exame a vários flagelos da sociedade e apela à reflexão dos direitos humanos.

Invisible, faz um pequeno exame a vários flagelos da sociedade e apela à reflexão dos direitos humanos.

2017
Drama | 1h27min
de Pablo Giorgelli, com Mora Arenillas, Diego Cremonesi, Mara Bestelli e Paula Fernandez Mbarak


Depois de se ter destacado com o filme Las acacias (2011), com o qual ganhou uma série de prémios em vários festivais (incluindo o Cannes Camera d’Or), o realizador e argumentista argentino Pablo Giorgelli volta a apresentar um filme no grande ecrã com um caráter minimalista. Invisible é um drama simples e realista, focado numa problemática social que assombra milhares de mulheres anualmente: gravidezes indesejadas. Situado na Argentina, existe ainda a agravante do aborto ser ilegal, tornando a situação toda ela mais delicada.

A futura mãe e protagonista do filme é Ely (Mora Arenillas), uma adolescente de 17 anos que vive infeliz e desmotivada, com uma mãe (Mara Bestelli) mergulhada em depressão e com um pai que nunca é sequer mencionado. Depois da escola, local que não lhe diz nada, trabalha em part-time numa loja de animais com o filho do dono (Diego Cremonesi), que será eventualmente o pai da criança. Ely esforça-se para passar pela sua rotina como se nada estivesse a acontecer, mas o receio e as dúvidas aumentam de dia para dia e tomar uma decisão torna-se inadiável.

Frugal no diálogo, o argumento escrito por María Laura Gargarella e pelo realizador começa por fazer ressonância ao título do filme, caracterizando Ely como uma rapariga desamparada e pouco sociável. Não está exatamente invisível, tem até uma amiga com a qual partilha o seu descuido e procura auxílio, mas a forma como a imagem, captada pelo diretor de fotografia Diego Poleri, isola a protagonista, salienta a sua solidão.

Inevitavelmente, o filme aborda técnicas de aborto natural e progride para a realidade dos abortos clandestinos, temáticas que apelam naturalmente ao tremendo filme romeno 4 luni, 3 saptamâni si 2 zile (2007), do realizador Cristian Mungiu.

Por cativante que seja observar o que vai acontecer de seguida, a falta de ritmo é por vezes frustrante. Aliada ao facto de Arenellas, apenas no seu segundo papel enquanto atriz, encarnar a personagem de forma algo inacessível, tornando por vezes difícil seguir os seus pensamentos. Giorgelli faz questão de a manter omnipresente durante o filme, com vários close up's e tracking shots, mas é quando a câmara está fixa que a sua performance é mais absorvente.

Apesar da composição musical de Pedro Onetto ser altamente esquecível, o rádio e até mesmo os concursos televisivos fúteis que estão em segundo plano, são os ruídos que mais chamam a atenção. É possível interpretar-se que este barulho de fundo é importante para que Ely se sinta acompanhada, acrescentando densidade à sua precariedade (a pobre rapariga dorme inclusive no sofá...).

Invisible, com aparente serenidade, faz um pequeno exame a vários flagelos da sociedade e apela à reflexão dos direitos humanos, uma matéria que deve estar em permanente revisão e atualização.


por Bernardo Freire