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Yeh Ballet(2020)

Há um mês | Drama, Desporto, Documentário, |

de Sooni Taraporevala, com Julian Sands, Achintya Bose, Manish Chauhan


Ao som de Tchaikovsky (O Quebra-Nozes), a realizadora Sooni Taraporevala inicia o seu filme mostrando planos afastados da cidade de Mumbai, sobretudo, os prédios que alcançam o céu e preenchem as ruas mais ricas, acabando depois, ao som do hip hop no seio das favelas, com grupos de adolescentes a dançar.

Transpondo o nome do seu anterior documentário, Taraporevala cria um filme com grande mérito, baseado em factos reais. A nova longa-metragem da Netflix explora o mundo de dois rapazes, cujos sonhos são meras utopias para as suas famílias, e até ofensas para as suas religiões. Asif (Achintya Bose), um garoto com um cabelo caótico, que passa os dias a dançar hip hop nas ruas de Mumbai com os amigos, e Nishu (Manish Chauhan), que se destaca num programa de dança, ganham a oportunidade de ter aulas de ballet na Academia de Dança de Bombaim.

Os obstáculos dos seus sonhos surgem quando ambas as suas famílias desaprovam os seus planos. Sem dinheiro para mais, os pais dão tudo o que podem aos filhos e, à sua maneira, querem que eles tenham sucesso. O problema é mesmo esse: à sua maneira. Sob a repressão da família, preconceitos, falta de dinheiro e competição entre dançarinos, os rapazes veem-se numa luta profunda para mostrar o seu potencial e garra. E para sair do beco em que uma cultura religiosamente forte e a escassez de bens materiais os colocaram. Saul Aaron (Julian Sands), o professor americano contratado para dar aulas na Academia, descobre estes dois talentos. Então, este homem frio, extremamente exigente e meio louco, desmancha-se ao longo do filme, à medida que se estabelece uma troca recíproca de lições entre professor e alunos. Os protagonistas entregam-se ao ballet e trabalham para deixarem de ser cativos da vida que tinham.

É desta relação entre os três que o filme ganha cor e, mais importante, a sua vertente real. E muda as expetativas do espetador, pois não se trata de sabermos o que esperar, mas sim de nos surpreendermos.

A longa tem uma banda sonora fenomenal, entre obras clássicas de Tchaikovsky e hip hop hindi, o filme é repleto de cenas de dança de todos os géneros, coreografias lindas e música.

Uma das preocupações de louvar que Taraporevala teve foi incluir, ao longo de todo o filme, passagens da câmera pelas ruas com multidões, documentando os momentos de festa e dança em comunidades em que as pessoas trabalham arduamente, mostrando este lado tão comum, pobre e precário da Índia.

Outro aspeto a elogiar, foi a realizadora se ter mantido fiel às suas raízes e ter criado um argumento em hindi, não cedendo à língua inglesa, valorizando esta história real. Assim, Taraporevala fez nascer um argumento simples, mas eficaz, na medida em que concretiza os sonhos dos rapazes, reflete a delicada realidade das favelas da Índia, o discurso marcado pela religião muçulmana e hindu.

Não deixo de mencionar as performances de Achintya Bose e Manish Chauhan que conseguiram transparecer a dor do desprezo da família, o esforço pelo reconhecimento e o sonho de serem bons numa das artes mais difíceis: o ballet. Dão ao espetador uma angústia que palpita sempre que não completam um salt e um sentimento de alívio quando triunfam desde o plié até aos passos mais difíceis.

Apesar de ter muitos lados positivos, não deixaria de apontar as duas horas de filme que poderiam ter sido encurtadas: houve cenas desnecessárias e demasiados acontecimentos insignificantes que foram envolvidos, e que poderiam ter sido ignorados quando o objetivo do filme era um, e ficaria muito mais rico se tivesse sido mais conciso.

Em suma, este filme inspira qualquer um a entregar-se por completo à sua arte. E a realizadora conseguiu definitivamente fazer arte. 


Diana Neves
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