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J’ai perdu mon corps(2019)

Há 4 meses | Animação, Drama, Fantasia, | 1h21min

de Jérémy Clapin, com Hakim Faris, Victoire Du Bois e Patrick d'Assumçao


Foi no Festival de Cannes que a mais recente promessa do cinema animado internacional estreou o filme J'ai perdu mon corps, uma fantasia hipnótica tão obscura quanto gentil. Refiro-me, claro, ao realizador e argumentista francês Jérémy Clapin, que depois de ver a sua primeira longa-metragem de animação ser reconhecida em diversos festivais de cinema e associações de críticos, faz chegar o projeto à plataforma da Netflix.

A história foi escrita pelo próprio com o auxílio do argumentista de Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain (2001), Guillaume Laurant, e começa por apresentar uma mão amputada a escapar de um laboratório de dissecação parisiense. À medida que acompanhamos a jornada atribulada da mão solitária, uma narrativa paralela foca-se em Naoufel (Hakim Faris), um entregador de pizzas desajeitado que está à procura de uma existência mais significativa. A sua rotina mundana é agitada quando se atrasa para entregar uma pizza a uma rapariga astuta, chamada Gabrielle (Victoire Du Bois). A conversa pelo intercomunicador do seu prédio deixa Naoufel encantado, ao ponto de fazer de tudo para que os seus caminhos se voltem a cruzar.

Ao longo do filme somos confrontados com o passado traumático da personagem central, onde os animadores têm a oportunidade de colorir a história em tons de preto e branco depressivos. São cenas duras mas necessárias para a compreensão de quem é Naoufel, o que sente e o que procura. Com esta informação, torna-se ainda mais intrigante assistir à forma como o rapaz, nervosamente, tenta decifrar o código para aceder ao coração de Gabrielle.

O desenho animado é simplista e naturalista na forma, mas expressa ideias que vão ao encontro da resiliência e da permanente afirmação da vida perante as dificuldades. No entanto, quanto mais mais próximos os créditos finais, mais metafórico o filme se torna, motivando uma reflexão bastante única e pessoal. O estado de espírito melancólico é calibrado com a banda sonora do compositor Dan Levy, que no uso de sintetizadores recorda as composições musicais de filmes celebrados de ficção científica como Interstellar (2014) e Arrival (2016). Por outro lado, a música em J'ai perdu mon corps eleva os patamares emocionais da história e promove a conexão com as personagens.

Com apenas 1 hora e 21 minutos de duração, a organização e foco do argumento permite que a audiência testemunhe uma aventura surpreendentemente expressiva de uma mão e o desenvolvimento de um interesse amoroso. A execução, ainda que tenha um fim alegórico, é simples. Contudo, este mix narrativo confere ao filme um toque experimental e memorável, algo que tem escapado a uma quota-parte considerável das animações contemporâneas.

Imprevisível, quase indefinível e sempre cativante, J'ai perdu mon corps não é nada menos que brilhante. Venha o próximo, senhor Clapin.


Bernardo Freire
Outros críticos:
 Pedro Freitas:   8
 Alexandre Costa:   8
 Pedro Horta:   8
 Rafael Félix:   7