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Girl(2018)

Há 6 meses | Drama | 1h45min

de Lukas Dhont, com Victor Polster, Arieh Worthalter, Oliver Bodart e Tijmen Govaerts


A estreia do realizador e argumentista belga Lukas Dhont expõe a puberdade de uma rapariga presa num corpo masculino. Não fosse este estágio da vida por si só um caos, o transtorno de identidade de género e as incertezas de preferência sexual só vêm dificultar a equação. Numa sociedade cada vez mais informada sobre estas questões, Girl evidencia o conflito interno da sua personagem central e reforça a importância da comunicação intrafamiliar.

A jovem, de nome Lara (Victor Polster), está ansiosa por uma cirurgia importante no processo de mudança de género. Entretanto, está a tomar a medicação apropriada para começar a ver no espelho o reflexo de um corpo feminino. Enquanto espera que as hormonas façam a sua magia, Lara investe no seu sonho: tornar-se uma bailarina de sucesso. Não lhe falta apoio paterno (Arieh Worthalter), e até tem uma boa relação com o seu pequeno irmão (Oliver Bodart). No entanto, o desejo de preencher o vazio começa a levar o melhor de si.

O argumento, escrito pelo realizador e por Angelo Tijssens, elege o dia-a-dia de Lara como a melhor forma de percebermos as suas ambições. Vemos os seus treinos de ballet, as curtas interações com as colegas e até as visitas ao consultório onde monitoriza o processo médico. Ao mesmo tempo, Girl transporta-nos para o íntimo de Lara através de vários planos da jovem despida em frente ao espelho, um ato de dor externo que seria meramente exploratório se o filme não salientasse o psicológico da protagonista.

Como não treinou ballet desde tenra idade, os seus pés sangram em consequência dos treinos exigentes, uma metáfora para as angústias pessoais e dificuldades que terá de ultrapassar. Mas o filme só cumpre o seu impacto porque Polster, no seu primeiro trabalho enquanto ator, consegue uma atuação credível e magnética, expondo imenso desconforto apenas com olhares.

É também uma performance fisicamente exigente, com a câmara de Frank van den Eeden a seguir com insistência as danças de Lara. Por um lado são fundamentais para aprofundar a sua personalidade, mas por outro a sua preponderância peca em exagero, para não falar de alguns cortes repentinos que interrompem o fluxo da música e de cenas um pouco fora de tempo.

Voltando às interpretações, é importante referir o papel atencioso de Worthalter, que vem juntar-se à recente vaga de pais exemplares no grande ecrã, como é o caso de Michael Stuhlbarg no filme Call Me by Your Name (2017)  e Josh Hamilton em Eighth Grade (2018). Perto do final, uma cena que apela ao diálogo torna-se num momento de grande destaque.

Depois de A Fantastic Woman (2017) ter sido premiado como Melhor Filme Estrangeiro nos Óscares em 2018, uma história também com uma personagem transexual no centro da narrativa, Girl arrecada uma nomeação merecida nos Globos de Ouro e a vitória da Câmara de Ouro no Festival de Cannes. É impactante, urgente e apresenta ao mundo um cineasta a ter em conta no futuro.


Bernardo Freire
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