I Am Not a Witch, é uma história trágica, cómica e cativante. É um filme provocativo que sublinha a absurdidade de uma situação terrível.

I Am Not a Witch, é uma história trágica, cómica e cativante. É um filme provocativo que sublinha a absurdidade de uma situação terrível.

2017
Drama | 1h33min
de Rungano Nyoni, com Margaret Mulubwa, Henry B.J. Phiri, Nancy Mulilo, Margaret Sipaneia, Nellie Namweemba Munamonga , Janet Chaile e Martha Chig’ambo


I Am Not a Witch é o filme de estreia de Rungano Nyoni, realizadora nascida na Zâmbia e criada no País de Gales, que já contava com algumas curtas-metragens premiadas – The List (2009), Mwansa the Great (2011) e Listen (2014). Agora, na sua primeira longa-metragem, conta-nos uma sátira sobre misoginia, superstição e restrições sociais, com um misto de paródia da ignorância que o mundo ocidental tem de diferentes culturas, confirmando a sua promissora visão de cineasta independente.

Numa vila remota da Zâmbia, uma rapariga de 8 anos (Margaret Mulubwa), é acusada de bruxaria. A queixa original inclui uma mulher que deixou cair um balde de água quando a menina apareceu perto dela e um homem afirma que a jovem lhe cortou os braços com um machado, abanando os seus braços – que estão de perfeita saúde – enquanto conta esta história. Levada para uma esquadra da polícia, a menina não confirma nem nega estas acusações e esta situação é reportada ao Sr. Banda (Henry B.J. Phiri), um desonesto oficial do governo. Sr. Banda é dono de muitas bruxas, muitas delas são mulheres idosas, que são obrigadas a trabalhar em campos onde lhes é exigido um grande esforço físico e mental. Estas mulheres estão presas a uma faixa de tecido, enrolada num enorme cilindro de madeira, que as restringe da distância que podem percorrer. Além disso, estas mulheres escravizadas são utilizadas pelo governo como atracção turística.

Intrigado pela idade e inocência da pequena bruxa, o Sr. Banda coloca a rapariga num “campo de bruxas”, onde é oferecida à jovem uma escolha: aceitar que tem poderes e viver uma vida de feiticeira, ou transformar-se num animal – uma cabra – que pode rapidamente servir de jantar a um predador. Sem grandes surpresas, a jovem heroína de I Am Not a Witch, opta por aceitar o seu status de bruxa, integrando-se no “campo de bruxas”, onde as mulheres oferecem um sentimento de comunidade e protecção à silenciosa novata, a quem atribuem o nome Shula (que se traduz como pessoa sem raízes).

What if she’s actually just a child?

Em nenhum ponto da história, Shula múrmura o título do filme, nem o espectador fica com certezas de que a sua falta de vontade em responder, constitui de facto uma admissão de que é uma bruxa. O que realmente sabemos é que existem “bruxas” nesta vila e que as suas condenações provém do medo, inveja ou raiva dos seus acusantes, do que propriamente de alguma evidência de magia negra.

Brilhantemente, Nyoni mantém a sua audiência na dúvida se é suposto (ou permitido) rir com esta louca situação. Debaixo do peso da história, o filme de Nyoni possui um sentido de humor distorcido, que provoca risos dolorosos por parte da audiência, que está em permanente incerteza do que deve sentir. A comédia utilizada tem quase uma qualidade semelhante ao humor dos Monty Python, com detalhes como Shula usar uma t-shirt que diz #bootycall e as bruxas comprarem perucas com nomes como Mandonna, Rahinna, Minny Mikaj, Sim Kardasham e Beyancey.

O director de fotografia David Gallego, compõe as suas imagens como um quadro-vivo e com uma duração de planos que acentua a comédia, bem como a tragédia, com resultados desoladores. A banda sonora inclui desde Vivaldi a Kanye West, mantendo o público inquieto e incomodado, em momentos-chave da narrativa.

No centro de tudo isto está um grupo de actores não-profissionais, liderados pela jovem Margaret Mulubwa, que carrega o filme, fazendo de Shula uma figura empática, mesmo tendo poucas linhas de diálogo, com grande destaque para as suas expressões faciais e o seu olhar. Mulubwa é uma hipnotizante e memorável presença, com um sorriso que ilumina tudo o que está à sua volta. Este feito é ainda mais impressionante pelo facto de Nyoni não fornecer absolutamente nenhuma backstory para Shula. Como ela, somos atirados para este mundo e deixados ao abandono, desenraizados e deslocados.

O filme satiriza os verdadeiros campos no Sul de África, onde o Estado aprisiona mulheres que, supostamente, possuem poderes maléficos. Nyoni traz a este a este fundo de verdade, um sentido de humor que enfatiza a insensatez de um Estado exercer controlo ao explorar crenças religiosas tradicionais. O filme é um pouco repetitivo em salientar a inabilidade de Shula de escapar à sua exploração, mas a história é entregue com firmeza, convicção e originalidade.

I Am Not a Witch, é uma história trágica, cómica e cativante. É um filme provocativo que sublinha a absurdidade de uma situação terrível, sem humilhar nem desrespeitar aqueles que realmente passaram por situações semelhantes.


por Sara Ló