Honra o respeito, a decência e tudo aquilo que amamos.

Honra o respeito, a decência e tudo aquilo que amamos.

2015
Drama, Romance
de John Crowley, com Saiorse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson, Jim Broadbent e Julie Walters


O mundo pós-Segunda Guerra Mundial viu a hegemonia dos EUA a afirmar-se cada vez mais. Consequentemente, vários imigrantes europeus à procura de trabalho continuaram a tentar a sua sorte numa nova vida neste país e em Nova Iorque destacava-se como uma das mais fortes comunidades estrangeiras a irlandesa. Assim, surge o contexto histórico do filme de 2015 Brooklyn, baseado no livro do mesmo nome de Colm Tóibin e realizado pelo cineasta irlandês John Crowley.

Passa-se nos anos 50 e segue a jovem Eilis Lacey (Saiorse Ronan), que se muda de uma pequena zona da Irlanda onde não encontra emprego para Brooklyn, deixando lá a mãe e irmã. Aos poucos consegue acomodar-se à sua recente realidade, até encontrando amor e conforto em Tony (Emory Cohen), um canalizador italiano. No entanto, circunstâncias inesperadas fazem com que tenha de voltar para a Irlanda, onde também conhece Jim (Domhnall Gleeson). De volta à sua antiga vida, mas ela própria mudada, Eilis encontra-se numa encruzilhada, dividida entre duas realidades e futuros diferentes.

Apesar de se passar numa década que difere largamente da atual, na qual o desenvolvimento tecnológico transformou tantos aspetos do nosso dia-a-dia, é em Brooklyn que se nota a continuidade do carácter humano. Porque sim, as personagens são dos anos 50, mas as circunstâncias em que se encontram e as suas personalidades não deixam de ser relacionáveis a qualquer espetador do século XXI.

Grande parte do crédito vai para o argumento que, claro, fornece a base para qualquer bom filme. Nick Horby, conhecido por tantos outros guiões como Wild (2014) e An Education (2009), fez um ótimo trabalho a adaptar um livro já muito aclamado e o próprio autor referenciou a sua autenticidade. Como tal, não recorre a grandes atos ou reviravoltas que estragariam a simplicidade e sentimento que o destacam de tantos outros.

Neste ponto, a história move-se ao mesmo ritmo que a própria vida real, demonstrando uma sabedoria a não apressar o que não deve ser apressado. Há mudança, saudade, rotina, emoção, o repentino e a importante dualidade dos dois mundos de Eilis, levada em força pelo protagonismo de Saiorse Ronan.

A atriz lidera o filme com uma sensibilidade que não deixa de ser forte por tão honesta que é e não dá um passo errado em conjunto com o resto do elenco. A sua química com Emory Cohen, que transcende um charme e humildade na sua interpretação de Tony, bem como com Domhnall Gleeson, cuja reserva e desejo de amor não necessitam de muitas palavras para transparecer, faz-se sentir num do que é dos elementos mais fortes do filme. Naturalmente, não nos podemos esquecer de Julie Walters ou Jim Broadbent, que podem não aparecer tanto, mas não deixam de iluminar as cenas nas quais estão presentes.

Desta maneira, conflitos internos são passados sem problema, simultaneamente devido ao trabalho de câmara e ângulos bem pensados, que além disso têm um papel crucial na justaposição da Irlanda com Brooklyn. Esta integração é do mesmo modo produto da fotografia incrível de Yves Bélanger, marcada por tons suaves mas vibrantes que definem a própria qualidade da obra, como da banda sonora na qual se destaca o ocasional som gaélico. Tudo isto, não omitindo uma menção do guarda-roupa, conferem uma harmonia técnica à narrativa de se louvar.

Por fim, Brooklyn honra o respeito, a decência e tudo aquilo que amamos, evocando o sentimento de quem está dividido entre dois sítios, tempos ou identidades diferentes. Mas mais importante, mostra que se pode contar uma história simples, que não deixa de ser mesmo assim importante ou relevante a todos nós.


por Margarida Nabais