Shazam! é uma lufada de ar-fresco para a DC. Larga por completo o tom depressivo e pesado dos filmes da era Snyder.

Shazam! é uma lufada de ar-fresco para a DC. Larga por completo o tom depressivo e pesado dos filmes da era Snyder.

2019
Ação, Aventura, Comédia
de David F. Sandberg, com Zachary Levi, Mark Strong, Asher Angel e Jack Dylan Grazer


Algo de estranho se passa. Eu sinto as vibrações no ar. Há no vento um cheiro caloroso a mudança. Há um RAIO de esperança no horizonte (get it?). Parece que depois de passar 5 filmes a corrigir os erros do filme anterior, finalmente a DC começa a encontrar o seu rumo. A era Snyder começar a ficar para trás, talvez ainda seja possível à eterna rival da Marvel e iniciar um percurso ascendente depois do festival miserável que tem sido praticamente todo o bem-dito franchise. Shazam! é uma lufada de ar-fresco para a DC.

Billy Batson (Asher Angel / Zachary Levi) é um miúdo de 14 anos que salta de lar de acolhimento em lar de acolhimento, recusando uma outra família que não seja a sua depois de ter sido separado da mãe em bebé, e fazendo todos os possíveis para a encontrar. O acaso põe-no à frente um feiticeiro chamado Shazam, que no seu leito da morte, lhe oferece os seus poderes para que ele consiga impedir Sivana (Mark Strong) de libertar as personificações (em forma de monstro) dos 7 Pecados Capitais na Terra.

E o que são estes poderes? Basicamente sempre que Billy grita SHAZAM! transforma-se num adulto estupidamente musculado e com uma fatiota que parece demasiado apertada na zona da virilha. Ah, e tem superforça, dispara raios dos dedos e por acaso também voa. É, se calhar isto também é importante.

Shazam! larga por completo o tom depressivo e pesado dos filmes da era Snyder, e aponta a um novo público-alvo. Este é claramente um filme muito mais acessível a miúdos e graúdos do que a maioria do material que iniciou este Universo, e é um passo na direção certa para um franchise que eu estava pronto para mandar abater e acabar com o seu sofrimento.

Há aquela expressão que eu próprio uso inúmeras vezes para criticar a MCU que é: “o filme é tão bom como o seu vilão”. E a maioria das vezes é verdade. Mas não aqui. Sivana não é propriamente o antagonista mais interessante de sempre, os seus planos pouco ou nada têm de relevantes e as suas motivações são, para ser simpático, frágeis. A parte gira é que resulta. Porque é exatamente isso que pede o tom de Shazam!. Este filme é cheesy e sabe que o está a ser, é totalmente self-aware das ideias já pré-concebidas que as pessoas têm dos filmes de super-heróis e brinca com isso vezes e vezes sem conta. Isto há uns tempos era completamente impensável para a DC. E é por isto que o vilão tão genérico como o que Mark Strong está a interpretar (e a divertir-se imenso ao que parece), resulta tão bem.

A parte menos interessante são as batalhas e a destruição, sendo essas completamente ofuscadas pelos pequenos momentos entre personagens, que esses sim, fazem valer o preço do bilhete, especialmente entre Zachary Levi, que o facto de ter (ao que parece) um espírito tão jovem tornam-no uma escolha de casting excelente, e Jack Dylan Grazer, que oferece, de longe, a melhor comédia do filme. As melhores partes de tudo isto são ver como Billy e Freddy (Jack Dylan Grazer) tentam descobrir os poderes que o rapaz tem, através de testes que apenas “putos estúpidos” fariam, e com o desenvolver da narrativa, ver como Billy começa a abraçar a sua nova família no seu último lar de acolhimento, e aquilo que começou como um filme de super-heróis, acaba por ser uma história estranhamente tocante sobre o que significa ter uma “família”. Até me puxou uma lagrimazinha aqui e ali porque o apego a estas personagens começa a fazer-se sentir. Mas lágrimas de macho, atenção.

Sim, o CGI é perto de péssimo às vezes, e a fotografia e a música são apenas competentes, mas sabem que mais? Não me chateia desta vez. Shazam! tem o coração no sítio certo, e foi isso que me ficou. É engraçado, é adorável, e muito mais inteligente do que aparentava ser nos trailers. Se há um ano atrás me dissessem que eu tinha dito isto de um filme da DC, eu tinha feito a pessoa comer um sapato. Mas parece que quem vai jantar um bocado de Timberland sou eu.


por Rafael Félix