Haneke não celebra o sofrimento, nem o usa para chocar ou para ter atenção.

Haneke não celebra o sofrimento, nem o usa para chocar ou para ter atenção.

2012
Drama, Romance | 2h7min
de Michael Haneke, com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva e Isabelle Huppert


Há uns dias trouxe-vos Punch-Drunk Love (2002), uma história sobre um romance pitoresco, um amor simples e belo na sua simplicidade. Desta vez, trago-vos uma das definições mais perfeitas da palavra “amor” alguma vez posta em película, a obra-prima de Michael Haneke e vencedor de todos os prémios possíveis e imaginários desde Cannes até aos Óscares, Amour.

Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant) são um casal octogenário a viver em Paris. Ambos antigos professores de música, levam uma vida recheada de cultura e arte, tendo passado o amor pelas mesmas à sua filha Eva (Isabelle Huppert), também ela música. Um dia, Anne tem um AVC e Georges passa a tomar conta das suas necessidades enquanto o seu estado mental e físico se vai deteriorando de dia para dia.

Não escolhi Amour por ser um filme romântico para passar uma tarde aninhada com o vosso namorado ou a vossa namorada. Escolhi Amour porque nos ajuda a valorizar quem temos junto a nós. Escolhi Amour porque é a perfeita descrição do “na saúde e na doença até que a morte nos separe”. Escolhi Amour porque descreve o “amor” numa linguagem fácil de entender, mas nunca fácil de assistir. E é assim mesmo que deve ser, porque nada é fácil quando se fala de “amor”.

Há certos momentos durante o filme em que o sofrimento de Anne é quase insuportável de ver, mas o que torna a situação ainda mais dramática, é a forma como Georges se mantém dolorosamente sereno e faz tudo o que está humanamente ao seu alcance para lhe dar todo o conforto que a sua mulher precisa. Sem melodramas, sem música manipulativa (como é hábito, Haneke não utiliza banda sonora nos seus filmes) ou sem longos monólogos sobre o amor ou a morte. Tanto de Amour é transmitido através de um olhar, de um tom de voz durante uma frase ou simplesmente de um plano que é mantido durante mais 3 ou 4 segundos do que é habitual. É um misto de desconfortável ou depressivo, com um certo tom ternurento e tocante que vem da relação pura dos nossos dois protagonistas.

Haneke não celebra o sofrimento, nem o usa para chocar ou para ter atenção. Pelo contrário, o realizador deixa de parte muitas oportunidades de o fazer de forma a espelhar o respeito que Georges tem pelo estado de Anne e não permitir que seja vista de uma maneira meramente humilhante e como foco de empatia para com o espectador. Tudo isto é escondido tanto quanto possível, ficando no fim apenas a genuinidade da história e a mestria de um dos melhores realizadores da história do cinema.

Até a fotografia pode passar por simples aos olhares mais desatentos, mas é perfeita para a história que conta. A forma como a câmara se mexe lentamente e mantém os planos desconfortavelmente longos, permite aos atores darem tudo o que têm em duas performances que são de tirar o fôlego, tal é a entrega em mostrar este retrato que tem tanto de trágico como de carinhoso, num filme com o impacto emocional que pode mudar a visão das nossas relações para sempre.

Há realizadores que fazem filmes. E depois há Michael Haneke, que mete pedaços da condição humana num ecrã como mais ninguém faz. Um filme exigente. Um filme que deve ser vivido e refletido. Um filme puro, verdadeiro e difícil. Tal como o amor deve ser. E é isso mesmo que é Amour: amor.


por Rafael Félix