É uma maneira encontrada pelo Childish Gambino de combinar todas as suas vertentes artísticas num só projeto.

É uma maneira encontrada pelo Childish Gambino de combinar todas as suas vertentes artísticas num só projeto.

2019
Comédia, Música, Thriller
de Hiro Murai, com Donald Glover, Rihanna, Letitia Wright e Nonso Anozie


Num ambiente que nos leva a querer o verão e o tempo quente de volta, Donald Glover, também conhecido artisticamente como Childish Gambino, apresenta as suas mais recentes músicas num pequeno filme. Este projeto foi mantido em segredo pelo próprio artista e por quem nele participa, tendo deixado os fãs e todos aqueles que o seguem numa verdadeira incógnita.

Acompanhado pelo seu realizador de eleição Hiro Murai que, anteriormente, trabalhou com Gambino nos seus videoclips (incluindo, o This is America - 2018) e na sua série Atlanta (2016-), é-nos mostrado neste filme a história da ilha de Guava, onde Deni Maroon (Donald Glover) vive com a sua namorada Kofi Novia (Rihanna).

Guava é uma ilha vítima de um conceito a que Deni chama de America: onde para ficarmos ricos temos de tornar alguém ainda mais rico. E, no caso em questão, os habitantes trabalham para o Red Cargo (Nonso Anozie), sem qualquer descanso semanal ou privilégio. Deni tem como objetivo dar algo à sua comunidade, aproveitando o seu talento musical e organizando um festival que duraria a noite toda. Desta forma, o povo iria divertir-se e sentir-se livre, fazendo jus à sua natureza alegre e animada. No entanto, as coisas não correm como planeado.

A narrativa tem todas as condições para criar expetativas de um desenvolvimento mais profundo. Contudo, ao ver o filme, acredito que Donald Glover não o tenha feito para manter o foco nas suas músicas, dando apenas um pequeno enquadramento histórico a cada uma. Desta forma, penso que conseguimos compreender com mais clareza o significado das suas letras e a quem deve tocar.

Sendo um trabalho nutrido de momentos que apenas o Childish Gambino consegue dar, há uma inclusão excelente de cada música do próprio, dando-nos alguns minutos de pura risada bem como momentos de reflexão. Assim, não tornou o filme num puro musical, mantendo a simplicidade de cada cena. E, mostrando a versatilidade e genialidade do artista.

No que toca ao acting, Rihanna é muito igual a si mesma, não trazendo nenhum elemento novo à personagem que representou. Muito assertiva nas suas ações, com o seu toque savage, mas sempre carinhosa e atenta. Já Letitia Wright, apesar das suas intervenções rápidas, a sua presença não deixa de ser notada, trazendo com a sua personagem Yara, uma onda de boa disposição e sentido de humor, criando momentos de felicidade no dia a dia mórbido dos trabalhadores.

Sem querer fazer qualquer tipo de spoiler ou dar muito sobre o filme, tenho de realçar a beleza e a transmissão de paz passada na última cena do filme. Um momento único que, de certa forma, remonta para uma tradição tão longe e diferente da europeia, mas que ainda assim, faz todo o sentido. Uma celebração à vida, digna de ser vista por todos.

Guava Island acaba por ser uma maneira encontrada pelo Childish Gambino de combinar todas as suas vertentes artísticas num só projeto. Uma ideia original que superou as minhas expetativas.


por Raquel Lopes