Goddard sabe exatamente o que está a fazer e junta a sua brilhante realização à excelente fotografia de McGarvey e ao grande trunfo que é a montagem de Laseek.

Goddard sabe exatamente o que está a fazer e junta a sua brilhante realização à excelente fotografia de McGarvey e ao grande trunfo que é a montagem de Laseek.

2018
Crime, Drama, Mistério | 2h21min
de Drew Goddard, com Jeff Bridges, Cynthia Erivo, Dakota Johnson, Jon Hamm, Chris Hemsworth, Lewis Pullman e Cailee Spaeny


Produtor de The Martian (2015), 10 Cloverfield Lane (2016), The Cloverfield Paradox (2018) e nome presente nos argumentos do já mencionado The Martian e de World War Z (2013), Drew Goddard estreou-se como realizador ao leme do agradável The Cabin in the Woods (2013). Cinco anos depois, regressa às salas de cinema nesse papel trazendo uma obra escrita por si: Bad Times at the El Royale.

O filme fala de sete estranhos que ao longo do filme se encontram todos no hotel El Royale que se situa na fronteira entre a Califórnia e Nevada. De um lado do hotel é um estado, do outro… bem, é outro. O hotel tem a particularidade de ter preços e leis diferentes para cada metade do estabelecimento. À sua porta, um padre (Jeff Bridges) e uma cantora de 2ª (Cynthia Erivo) entram e deparam-se com um vendedor de aspiradores (Jon Hamm) que diz estar na receção há demasiado tempo e que não há sinais de ninguém. Pouco depois, chega uma mulher misteriosa (Dakota Johnson) que só quer um quarto. No meio de diálogos peculiares, pistas introdutórias e muitas perguntas levantadas, surge o único empregado disponível (Lewis Pullman) que lhes faz o check-in.

É este o ponto de partida em Bad Times at the El Royale que promete levar o seu tempo a fazer levar sobrancelhas, a tornar-se misterioso e escalar para zonas mais profundas do que aquilo a que inicialmente parece.

O argumento é realmente profundo, com críticas sociais quase impercetíveis, metáforas e dicotomias entre o bem e o mal. Goddard volta a brincar com as expetativas da audiência, o que sugere que o próprio pretende filtrar o seu público. Goddard mostra não necessitar que a sua obra seja compreendida por todos, apenas por aqueles que querem compreender. O realizador não se acanha em expor momentos narrativos potentes fora dos seus lugares, no status quo. Tudo isto leva a que muita gente descarte Bad Times at the El Royale por parecer não entender o que ali se passa.

No entanto, toda esta profundidade no enredo pode fazer com que o filme se perca num ou noutro momento por não conseguir abordar todos os temas que pretende, dando, mais tarde, a sensação de que se está a tornar longo. Acaba por recorrer a muitos flashbacks e, se calhar, repetir informação que já estava entendida.

A primeira cena da longa-metragem é, para mim, a mais marcante do filme. Parece estar narrativamente deslocada, mas acaba por se mostrar indispensável. A mestria como é concebida roça o genial e aumenta as expetativas do filme para outro patamar. E isto leva-me à mão de Goddard na realização. Mostra que sabe exatamente o que está a fazer, que sabe como canalizar todo o suspense e curiosidade do espetador até entregar a resposta, não se importa de deixar a câmara rolar e de fornecer planos longos e pausados que contam bastante.

A fotografia de Seamus McGarvey é espetacular, com um nível de composição tremendo. Lê cada personagem de uma forma tão agradável que consegue, por vezes, consumir quem a observa. A sua junção com a bela construção de decoração dos décors é uma relação predestinada.

A edição de Lisa Laseek é espetacular e capaz de fazer inveja a um filme dirigido por Scorsese ou Tarantino. Estando-me naturalmente a focar na montagem, Bad Times at the El Royale usa o trunfo da edição da melhor maneira possível, elevando o valor geral da obra.

O elenco é de luxo. Desde o grande Jeff Bridges ao surpreendente Lewis Pullman, passando por nomes como Chris Hemsworth, Jon Hamm, Dakota Johnson e ainda junta Cynthia Erivo e Cailee Spaeny à mistura. Cada um destes elementos agarra na sua personagem e faz um trabalho bastante bom, no mínimo. Bridges prova que é um dos melhores atores da história e eleva Erivo a um outro patamar. No entanto, o grande destaque recai sobre Hemsworth. Tremendamente fundido com a sua personagem, Billy Lee é a maior surpresa do filme. Com a sua camisa aberta, fio ao pescoço e vindo de um culto espiritual, Hemsworth entrega uma mistura entre sarcasmo e tensão.

Para finalizar, Bad Times at the El Royale agradou-me bastante. Tem a capacidade de apresentar uma boa história, com o devido background, que é complementada com o tremendo elenco que tem. Goddard sabe exatamente o que está a fazer e junta a sua brilhante realização à excelente fotografia de McGarvey e ao grande trunfo que é a montagem de Laseek.


por Pedro Horta