Glass é uma mistura de thriller, de terror psicológico e de fantasia, contendo todos os códigos de um verdadeiro filme de super-heróis a la M. Night Shyamalan.

Glass é uma mistura de thriller, de terror psicológico e de fantasia, contendo todos os códigos de um verdadeiro filme de super-heróis a la M. Night Shyamalan.

2019
Drama, Mistério, Sci-Fi | 2h9min
de M. Night Shyamalan, com James McAvoy, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Sarah Paulsen, Anya Taylor-Joy, Spencer Treat Clark e Charlayne Woodard


First name? Mr.

Last name? Glass.

19 anos, foi o que levou M. Night Shyamalan em terminar a sua inesperada trilogia iniciada pelo visionário e clássico Unbreakable (2000) e pelo recente e muito bom Split (2017).  Shyamalan conseguiu prever o que iria acontecer no século XXI – o auge dos super-heróis.

O que nos conta o filme?

David Dunn (Bruce Willis) continua a sua investigação a fim de encontrar a quem chamam The Hord (James McAvoy), o nome dado a Kevin Wendell Crumb, um homem que pode assumir 23 personalidades diferentes, mais uma suprema, nomeada The Beast. Resurge então Elijah Price (Samuel L. Jackson) que parece conter informações essenciais sobre os dois homens e que possa ser do interesse da psiquiatra Ellie Staple (Sarah Paulson).

M. Night Shyamalan reúne os três protagonistas da sua trilogia, num hospital psiquiátrico. O realizador confessou basear-se em muitos aspetos de One Flew Over the Cuckoo’s Nest (1975). O enredo é simples, maioritariamente parte do filme passa-se no tal hospital, onde todos querem escapar. A missão da Dr. Ellie Staple é de convencer os três personagens que não têm nada de super-heróis, mas sim, que sofrem de uma desordem psicológica – desenvolvendo desculpas plausíveis, explicativas e construtivas para cada situação. A questão do filme é mesmo essa: serão os personagens super-humanos, ou tratam-se de coincidências?

O realizador não opta por fazer um filme repleto de ação e de efeitos visuais – se é disso que estiverem à espera, poderá ser um balde de água fria. A obra não tem nada de um filme de super-heróis, como na Marvel, mas sim, uma continuidade perfeita de Unbreakable e Split (nota que o orçamento é consideravelmente baixo em relação a estes tipos comuns de produção). O virtuosismo, a realização e o argumento permite à audiência de contemplar a longa com suspense do início ao fim.

Foi-me impossível desligar do filme. As qualidades de Shyamalan em transmitir o seu amor pelos comic-books e pelo seu universo é real, soube perfeitamente demonstrar as emoções necessárias. A sua realização é milimetricamente pensada, usando todos os subterfúgios possíveis. Não houve um plano que não me fizesse efeito. Pelas cores, pela sua maneira de abordar a câmara, pelos seus planos opressivos ou angustiantes e ainda pelos seus soberbos grandes-planos que metem em valor todo o potencial dos atores.

Atores esses, que fazem toda a força do filme. O que dizer? Deem Oscars para cada uma das 24 personalidades de James McAvoy! Desta vez, o ator interpreta mais de 21 personalidades diferentes – algumas passagens de personalidade para outra são realizadas em plano-sequência…por isso, imaginem todo o trabalho detrás. A performance de McAvoy é digna das melhores do cinema contemporâneo. Samuel L. Jackson interpreta magnificamente Mr. Glass, é uma personagem que sabe e prevê tudo primeiro que todos. Faz todo o sentido o nome do filme corresponder-lhe, pelo desenvolvimento e arco narrativo proposto. Sarah Paulson é brilhante no papel da psiquiatra. Sendo o seu objetivo convencer os três “heróis” de que  são meros humanos e de toda a história ser uma coincidência. Fiquei desapontado com Bruce Willis, não propõe grande impacto à longa-metragem. Achei-o muito mais distante da audiência que os seus parceiros de tela. É um dos pontos negativos.

Outros pontos negativos são as suas facilidades no argumento – algumas coisas não nos são explicadas e outras parecem demasiadas impossíveis. O filme contém vários twists – e alguns são previsiveis, é pena.

A banda sonora é de grande qualidade. Conquista-nos pelos seus temas atrativos, provenientes dos precedentes filmes.

É um filme com diversos níveis de leitura. Percebi umas críticas muito grandes ao cinema atual que é produzido em Hollywood e umas mensagens do quão visionário M. Night foi graças a Unbreakable – que por ventura não tinha sido bem recebido no seu lançamento e que com o tempo ganhou estatuto de clássico – tal como agora com este filme. Pode-se dizer que contribuiu para o desenvolvimento dos comics para as telas.

Glass é uma mistura de thriller, de terror psicológico e de fantasia, contendo todos os códigos de um verdadeiro filme de super-heróis a la M. Night Shyamalan. Se gostaram dos dois precedentes filmes, reservem pipocas doces e desfrutem nas telas obscuras. Cada um irá interpretá-lo à sua maneira.


por Alexandre Costa