Foi produzido a pensar nos fãs e não apenas com o objetivo de lucrar centenas de milhões de dólares.

Foi produzido a pensar nos fãs e não apenas com o objetivo de lucrar centenas de milhões de dólares.

2019
Ação, Aventura, Comédia
de Rob Letterman, com Ryan Reynolds, Justice Smith, Kathryn Newton


Pokémon (1995-) é um franchise que dispensa de apresentações. Creio que qualquer pessoa, desde os mais novos e terminando nos mais velhos, conhecem pelo menos o Pikachu. Infelizmente só joguei Pokémon na adolescência porque os meus pais eram contra os videojogos, por isso nunca tive uma consola Game Boy como a maioria dos jovens da minha geração. Toda a febre que vivi em torno da saga deveu-se aos tazos oferecidos nos pacotes de batatas fritas, aos desenhos animados exibidos semanalmente na SIC e a Pokémon Go, a versão para dispositivos móveis que combina a jogabilidade dos jogos com a tecnologia de realidade aumentada.

 

Desde pequeno que sempre desejei assistir a uma adaptação ao grande ecrã que me possibilitasse observar como aquelas criaturas seriam no mundo real. Foi então que em meados de 2017 vibrei de alegria quando anunciaram oficialmente o live action de Pokémon com Rob Letterman (Monsters VS Aliens – 2009; Goosebumps – 2015) na realização. Porém, também me considerava um pouco cético porque parece existir uma maldição em torno das adaptações de videojogos, pois em praticamente todos os casos culminam em obras que variam entre o medíocre e o terrível, como Assassin’s Creed (2016), Doom (2005), Mortal Kombat: Annihilation (1997), entre outros. Será que Detective Pikachu conseguiu quebrar a maldição?

 

Começo por referir que esta versão não se baseia diretamente na história dos videojogos originais ou do anime, mas sim numa aventura única dentro daquele universo, que nos apresenta Tim, um jovem solitário que com a ajuda de um Pikachu falante tentam descobrir o mistério em torno do suposto acidente mortal do seu pai.

 

Não adaptar especificamente o argumento dos videojogos ou do anime, determinou-se como uma jogada segura por parte da Warner Bros, pois desta forma o espetador não terá predominância para efetuar demasiadas comparações com o material de origem. Pessoalmente, preferia que o filme focasse na jornada do anime, nos apresentasse um jovem treinador em busca de glória. Eu sei que seria cliché, mas em simultâneo seria uma visão realista daquela série que marcou a infância da maioria de nós.

 

Mas opiniões pessoais à parte, o argumento de Detective Pikachu entrega-nos uma história diferente que funciona bem e nos delicia durante os dois primeiros atos. Todo aquele mundo está povoado pelas criaturas que amamos, existem situações cómicas, boas doses de humor (com direito a 2 ou 3 piadas adultas), momentos intensos e uma vontade avassaladora de querermos habitar naquele universo, tal como desejávamos quando víamos a série na TV. Por cerca de 1 hora e pouco senti-me novamente com 8 anos. Não consigo descrever o meu fascínio e agradeço à equipa de produção e provavelmente a apenas um dos argumentistas por trazer para o grande ecrã quase tudo o que os fãs desejavam. Contudo, o terceiro ato parece escrito por um argumentista totalmente diferente, alguém que desconhece a essência da saga e que só objetiva forçar determinados acontecimentos, criar plot twists desnecessários e algumas situações que não fazem muito sentido. Seria perfeito se tivessem continuado a apostar numa abordagem simples.

 

Num panorama técnico, tudo está brilhante. As criaturas não possuem um design totalmente realista, negro e “pesado”, continuam com o tom cartoonesco, mas enriquecidas com excelentes texturas e animações incríveis. As sequências de ação estão bem executadas, possuem um estilo de edição que já é habitual nas obras deste género e despertam a nossa atenção, principalmente uma que traz um certo momento de Inception (2010) à minha memória.

 

Relativamente ao elenco, Justice Smith (Jurassic World: Fallen Kingdom – 2018) e Kathryn Newton (Blockers – 2018) assumem-se competentes, apesar de constituírem uma dupla sem muita química. Por sua vez, a bela voz de Ryan Reynolds (Deadpool – 2016-) não combina minimamente com a “fofura” intrínseca no aspeto do pequeno Pikachu, acabando por soar demasiado estranho ouvir este belo ratinho com a voz do Deadpool.


Detective Pikachu possui alguns problemas, principalmente relacionados com a presunção em torno do 3º ato e consequentemente com situações que não fazem muito sentido, mas apesar disso consegue afirmar-se como a possível melhor adaptação de sempre de um videojogo. Foi produzido a pensar nos fãs e não apenas com o objetivo de lucrar centenas de milhões de dólares, é bonito, é divertido, irá despertar um sentimento de nostalgia, assim como uma enorme vontade de habitar naquele mundo e consegue deixa-nos ansiosos por vermos mais aventuras.

É imperdível para quem cresceu a amar Pokémon, seja nos filmes ou nos desenhos animados. Quanto aos restantes espectadores, talvez seja mais um agradável blockbuster de Verão.


por Pedro Quintão