Fellowship of the Ring, como os capítulos seguintes da trilogia, é uma jornada, temporal e espacial, para personagens e para o espectador.

Fellowship of the Ring, como os capítulos seguintes da trilogia, é uma jornada, temporal e espacial, para personagens e para o espectador.

2001
Aventura, Fantasia, Drama
de Peter Jackson com Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Orlando Bloom, Christopher Lee, Sean Astin, Sean Bean


Falar de cada um dos filmes da saga Lord of the Rings em separado é uma crueldade. Não que cada filme não se consiga sustentar individualmente, mas após passar grande parte da minha vida a ver este épico vezes e vezes sem conta, torna-se praticamente impossível vê-los como capítulos separados e não como segmentos de uma história gigante. E uma das histórias mais importantes a alguma vez agraciar o grande ecrã.

Fellowship of the Ring é a primeira parte da trilogia Lord of the Rings trazida ao cinema por Peter Jackson, baseado nas obras do mesmo nome do escritor inglês que acabou por marcar o século XX, J.R.R. Tolkien. Neste primeiro capítulo somos introduzidos ao passado de Middle Earth e às origens do One Ring de Sauron, uma entidade constituída de puro mal que pretende, através do Anel, subjugar toda a Terra ao seu domínio. Cabe a Frodo Baggins (Elijah Wood) e aos seus companheiros, atravessar Middle Earth até Mordor e destruir o Anel, e impedir que Sauron tome controlo de tudo o que lhes é querido. 

O que é que torna Lord of the Rings diferente de todos os outros universos que lhe sucederam, mundos de fantasia, monstros e batalhas? A resposta não é difícil: tudo.

Mas vamos começar pela parte principal, o world building. Desde o primeiro frame em que ouvimos Galadriel (Cate Blanchett) explicar a história do Anel e como este acabou por vir parar às dos Baggins, que se percebe que este mundo é imensamente grande e complexo. E logo de seguida, Bilbo (Ian Holm) apresenta-nos o Shire, e o povo, os Hobbits. E a descrição pitoresca com que é feito, dá uma vontade enorme de entrar pela televisão adentro e viver ali, em Bag End, e apenas comer, beber e ser feliz, a simplicidade da vida dos Hobbits é um inegável copo de leite morno para o coração.

Portanto Jackson começa por nos mostrar um mundo negro na sua introdução e imediatamente a seguir, expor-nos a uma pequena secção desse mundo que é completa antítese da imagem inicial. Além de ser um trabalho de montagem genial, é também storytelling no seu melhor, porque a partir daqui não há volta a dar, é impossível não querer explorar Middle Earth, desde os recantos campestres de Rivendel, até às trevas de Mordor.

Fellowship of the Ring, como os capítulos seguintes da trilogia, é uma jornada, temporal e espacial, para personagens e espectador. Porque é verdade que se para alguns as 3h48 da Extended Version podem assustar, a verdade é que cada momento é utilizado para explorar diferentes sítios, diferentes raças e diferentes criaturas. É uma odisseia de aventura, de exploração de um universo gigantesco que estamos a descobrir ao mesmo tempo que as personagens, e a sensação de "wow" é constante. 

Mas nada disto teria metade do interesse se os nossos companheiros de viagem não fossem igualmente fantásticos. Dois Homens, um elfo, um anão, quatro hobbits e um feiticeiro. O eterno grupo, o núcleo e o coração destes filmes. Aragorn (Viggo Mortensen), a personificação da honra, mas de alma dividida entre o dever e o medo constitui uma das personagens mais interessantes da saga, e a com o arco mais interessante também, mas não é o único. Boromir (Sean Bean) e Sam (Sean Astin) são provavelmente os que mais são desenvolvidos neste primeiro capítulo, embora todas as personagens tenham o seu tempo de brilhar, estes são aqueles em que o peso das suas responsabilidades se faz notar de forma mais palpável.

Haverá forma de tornar este mundo mais imersivo? A resposta: Howard Shore. A banda sonora criada para Lord of the Rings pelo compositor canadiano é quase tão icónica como os próprios filmes, tanto que sempre que o Fellowship começa, automaticamente estou a trautear Concerning Hobbits. A música varia na perfeição com os tons que estão no ecrã desde as harpas pacíficas de Rivendel ou as flautas do Shire até aos sons guturais de Mordor ou Isengard

Fellowship of the Ring é o inicio da longa jornada até Mount Doom (literalmente, os filmes juntos equacionam quase 12 horas), mas há já um sentimento de carinho por cada uma destas personagens que estão a dar tudo para salvar o seu mundo, que agora também é nosso. Peter Jackson pouco mais podia fazer para tornar este primeiro capítulo melhor ainda. E assim continuou por mais dois capítulos, mas isso é uma conversa para mais tarde. 



por Rafael Félix