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Spider-Man: Far From Home(2019)

Há um mês | Ação, Aventura, Sci-Fi | 2h9min

de Jon Watts, com Tom Holland, Samuel L. Jackson, Colbie Smulders, Zendaya e Jake Gyllenhaal


Spider-Man: Far From Home era, logo à partida, um projeto ingrato. O sentimento de conclusão deixado após o clímax de Endgame fazia com que o capítulo que se seguisse acarretasse o peso de finalizar a Fase 3 da Marvel Cinematic Universe e deixar a malta que, como eu, só queria acabar a storyline das Infinity Stones, curiosa para o que possa trazer o futuro dos super-heróis da Marvel. Conseguiu? Não totalmente.

Depois da morte de Tony Stark, o mundo ficou com um vazio. Quem será o próximo Iron Man? Quem vai dar a cara pela iniciativa Avengers? Bem, Stark achava que seria Peter Parker, aka Spider-Man (Tom Holland), a herdar o manto deixado por este após o seu sacrifício para salvar o mundo de Thanos. O problema? Peter é só um miúdo de 16 anos de Queens e não sabe se tem nele a capacidade de carregar o peso do mundo nos seus pequenos ombros. Mas quando Nick Fury (Samuel L. Jackson) aparece acompanhado de Mysterio (Jack Gyllenhaal), um homem de outra dimensão que veio ajudar a S.H.I.E.L.D a derrotar a ameaça dos Elementals, e pede ajuda a Peter, coloca-o perante uma escolha: continuar como o “friendly neighbourhood Spider-Man” e conseguir ter uma vida minimamente normal com amigos ou uma namorada, ou abraçar o seu futuro como um Avenger, com toda a responsabilidade e sacrifícios que isso traz.

Neste segundo capítulo da saga do Aranhiço na MCU, o tom que marca o passo do filme não é muito diferente do de Homecoming. É, no seu núcleo, uma comédia juvenil, sólida e correndo poucos riscos, não se levando demasiado a sério e o humor, mesmo que apenas 50% dele tenha funcionado, está presente o tempo suficiente para não se tornar irritante e mesmo que este mesmo tom mais cómico tire um pouco o impacto das cenas que se querem mais sérias, também é verdade que esta mesma leveza é essencial a um filme que na verdade é sobre um puto de 16 anos que só quer beijar uma miúda. É um equilíbrio precário, mas que se consegue manter firme nas alturas chave do filme, o que acaba por deixar-nos com uma experiência bastante agradável no fim de contas.

Tom Holland é cada vez mais uma certeza como Peter Parker, sendo que o arco que passa durante o filme, na adaptação de um miúdo, para um herói global a crescer para as responsabilidades que o mundo lhe impinge enquanto ainda sofre com a perda da sua figura paternal em Tony Stark é capaz de ser das evoluções mais bem conseguidas que vimos nos últimos tempos nas criações de Stan Lee. Não menosprezando Jake Gyllenhaal, claro, que consegue disfarçar algumas fragilidades que a sua personagem tem com uma atuação ao seu melhor nível, sempre interessante, com várias nuances e twists ao longo do filme que fazem o ator brilhar como lhe é habitual. Há também o agradável regresso de Jon Fraveau como Happy Hogan que funciona perfeitamente num filme tão “leve” como este, e Zendaya, que finalmente tem algo substancial a fazer como MJ, acaba por ser um dos destaques positivos de Far From Home, sendo que o seu romance adolescente com o nosso jovem aracnídeo é tão fofinho e awkward que acabou por ter alguns dos melhores momentos do filme.

Mas tudo bem, isto é um filme da Marvel. Já sabemos que não se pode esperar grande coisa na realização, na música ou na fotografia, é sempre tudo tão insonso que têm sempre de ser as personagens a carregar a tela, e nunca há nada mais interessante para ali ver. É e sempre foi o grande calcanhar de Aquiles deste franchise, e este não é exceção, mas com uma nuance. Há aqui sequências que podem facilmente entrar para os top moments de toda a MCU, promovidas pelos poderes de Mysterio serem utilizados de forma criativa e às vezes em conjunto com os poderes de Spider-Man, o que é coisa tão rara nestes filmes, que quando aconteceu eu mal acreditei no que estava a ver.

Spider-Man: Far From Home não reinventa a roda ou nada parecido, mas é sólido e sabe o que tem de fazer. Há demasiadas personagens, muitos buracos lógicos que precisam de uma mente muito desatenta para conseguir ignorar e a habitual falta de nada de interesse a nível cinematográfico. Mas é também bem-humorado, bem atuado, que tem aqui e ali alguns flashes de brilhantismo e que incorpora na perfeição as palavras de Uncle Ben “with great power comes great responsability”. Se me faz salivar por mais trabalhos da Marvel? Nem por isso, mas também não me faz querer largar isto sem pensar duas vezes. Vamos ver o que o futuro nos traz.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   7
 Pedro Quintão:   8