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Honey Boy(2019)

Há 15 dias | Drama, | 1h34min

de Alma Har'el, com Shia LaBeouf, Lucas Hedges, Noah Jupe, Laura San Giacomo e FKA Twigs


“I’m going to make a movie about you. Make me look good, Honey boy.”.

Já faz um tempo em que Shia LaBeouf deixou de ser uma estrela infantil da Disney Channel (Even Stevens – 2000-2003), ou o jovem do seu tempo nos maiores blockbusters de Hollywood (Transformers – 2007-2011). LaBeouf deixou o mundo do cinema comercial para trás. Focado em projetos independentes, ganhou o seu estatuto como num dos melhores atores desta era. Trabalhou com Oliver Stone no Wall Steet: Money Never Sleeps (2010), esteve ao lado de Tom Hardy e Jessica Chastain em Lawless (2012 e atingiu o auge enquanto puro ator de método nos filmes Nymphomaniac (2013) e Fury (2014). Para terem noção, em Fury, passou as rodagens todas sem tomar banho e a cortar-se na cara com uma faca para viver em sintonia com a sua personagem.

LaBeouf sempre declarou que teve um passado complicado. Um pai alcoólatra e toxicodependente; uma infância precoce e perdida; vários problemas com o álcool e drogas; passagens temporárias na prisão e em centros de reabilitação. O ideal para ter uma bagagem e escrever um argumento. Foi precisamente isso que aconteceu. Honey Boy saiu no Festival International de Toronto e Labeouf é o argumentista do filme - declarando que foi escrito num centro de reabilitação.

O que nos conta o filme?

Biopic sobre a infância e adolescência de Shia Laboeuf. Dos seus inícios de glória à sua passagem no centro de reabilitação. Exploramos os seus primeiros passos em Hollywood até à queda em todas as derrapagens possíveis. Tudo isto é explicado pelo relacionamento complexo com o seu pai, um ex-veterano do Vietman autoritário que enfrenta problemas com o álcool e drogas.

Achei dois pormenores engraçadíssimos. O primeiro é do facto do Shia Laboeuf interpretar o seu pai - a caracterização e maquilhagem estão incríveis; o segundo é das duas versões do Shia (criança/adolescente) chamar-se Otis no filme. Acaba por tirar um ligeiro peso nas suas costas, tornando o todo numa espécie de semi-biopic.

As três performances são extraordinárias. Quer Laboeuf que se faz esquecer e torna-se no seu próprio pai, quer Lucas Hedges perdido no centro de reabilitação e o jovem Noah Jupe que carrega toda a emoção nas suas costas. A química entre Jupe e Laboeuf é pura e genuína.

O filme não é complexo, nem o deseja ser. É uma obra recheada de poesia, tanto no seu argumento, como visualmente. A realização de Alma Har'el e a fotografia de Natasha Brajer (que tem no seu currículo The Neon Demon – 2016) são de uma subtileza visual incrível. Sente-se completamente o toque feminino para embelezar a obra e dar-lhe o seu aspeto poético. A realizadora não tem medo de fazer pausas na sua narrativa. Há planos de 2-3 minutos sem qualquer diálogo. Vemos as personagens a comunicar pelos olhares e pelos toques físicos.

O filme depois aborda algo que acho fascinante. Ser famoso precocemente. Toda a família de Shia Labeouf não conseguiu integrar “a fama de Hollywood”. São artistas, mas artistas falhados. Honey Boy ainda explora o facto de o pai estar a trabalhar para o filho, e de ser pago às costas dele. Se faz confusão? É claro que faz. Tanto para nós, como para o pai. Toda a educação que Labeouf recebeu não é mais que “ser o menino perfeito”. Um autêntico produto comercial. O pai não hesita em dar cigarros ao filho, fazê-lo decorar o seu texto noites inteiras. É bastante rígido com ele.

Honey Boy humaniza uma estrela precoce do cinema. Por vezes, nós que sonhamos em ter uma vida recheada de fama não imaginamos que do outro lado, eles imaginam em ser como nós. Pessoas simples.

Fun fact, Laboeuf conseguiu interpretar o seu pai, mentindo-lhe. Fez-lhe assinar os papéis de autorização, dizendo que iria ser Mel Gibson a interpretá-lo.


Alexandre Costa
Outros críticos:
 Rafael Félix:   6