Esta é a comédia romântica para quem não gosta de comédias românticas.

Esta é a comédia romântica para quem não gosta de comédias românticas.

2002
Comédia, Drama, Romance
de Paul Thomas Anderson, com Adam Sandler, Emily Watson e Philip Seymour Hoffman


Eu detesto comédias românticas, não há como dar a volta a isto. Sempre os mesmos clichés e histórias de amor tão insuportavelmente lamechas que fico com vontade de deixar de escrever sobre filmes e passar o resto da minha vida a ver “O Preço Certo”. Mas depois há Paul Thomas Anderson, um dos meus realizadores preferidos, que tudo aquilo que faz, faz melhor que os outros, criando no meio do monte de lixo que há neste género, o diamante que vos trago para o vosso Dia dos Namorados: Punch-Drunk Love.

O filme centra-se em Barry Egan (Adam Sandler), um homem com alguns problemas a relacionar-se com os outros, talvez mesmo à beira de um foro ligeiro de autismo, que começa a desenvolver uma estranha relação com uma amiga de uma das suas sete irmãs, Lena (Emily Watson). Tudo isto enquanto está a ser vítima de um esquema de extorsão de dinheiro depois de ter ligado para uma linha de sex-phone. Não confundir com saxofone, o instrumento de sopro. Está feita a dad joke obrigatória. Vamos ao que interessa.

Quando durante a promoção de Magnolia (1999) o realizador disse que o seu próximo projeto ia ser “um filme com o Adam Sandler”, já nessa altura visto como um ator de filmes de comédia descartáveis, ninguém levou aquilo muito a sério. Anderson cumpriu, e 3 anos depois lança Adam Sandler para a melhor performance da sua carreira, num papel escrito e feito a pensar nele e que lhe assenta que nem uma luva.

Punch-Drunk Love faz um trabalho extraordinário em apresentar uma das melhores personagens de Paul Thomas Anderson, e isto é dizer muito quando tem no catálogo nomes como Daniel Plainview em There Will Be Blood (2007) ou Reynolds Woodcock em Phantom Thread (2017). O peso que Barry Egan carrega consigo chega a ser doloroso de ver. É praticamente impossível não simpatizar, sendo que o vemos tantas vezes a estender a sua mão num grito silencioso por ajuda, e de cada vez que o faz, o Universo puxa-lhe o tapete e deixa-o estatelado no chão com o pescoço partido em 4 sítios.

E a narrativa dá o suficiente a conhecer de Barry antes de introduzir Lena, magnificamente interpretada por Emily Watson, sendo que quando estas duas almas perdidas finalmente se encontram, somos automaticamente impelidos a torcer por eles, principalmente porque há um desejo ternurento a pairar durante o filme de querer que Barry encontre alguma faísca de luz ao fundo do túnel.

Como em todas as comédias românticas, há forças externas que tentam separar os dois amantes, mas nada em Punch-Drunk Love parece gratuito. Cada momento do filme, e agora em específico deste elemento, funciona de forma a construir um pouco mais a personagem de Adam Sandler, tornando o arco narrativo de Barry um pedaço de perfeição no meio de um género de filmes que pouco ou nada quer saber dos seus integrantes. É FOFINHO. Exato, fofinho. Não julguem.

E estaria a ser negligente se não referisse o quão engraçado o filme consegue ser, sem nunca fazer um esforço para isso. Não há punch lines ou pessoas a cair comicamente. Há, isso sim, interações hilariantes entre personagens, com especial atenção para uma simples conversa telefónica, entre Adam Sandler e o falecido e icónico Philip Seymour Hoffman, que consegue ser estupidamente engraçada sem nunca precisar de dizer uma só piada.

E, para não variar, Paul Thomas Anderson tem um filme lindíssimo no aspeto técnico, com múltiplos planos bem iluminados e construídos com todo o propósito, pequenos detalhes na edição que dão um toque de charme à relação das personagens e uma das melhores bandas sonoras dos filmes do realizador americano, tendo esta um papel substancial em dar ritmo ao filme e também refletir um pouco a personalidade de Barry.

Esta é a comédia romântica para quem não gosta de comédias românticas. É ternurento e charmoso, cheio de fantásticas personagens, com sentido de humor mais inteligente do que a maioria e um filme que traz a melhor performance da carreira de Adam Sandler. Agarrem-se ao vosso namorado ou namorada e divirtam-se. Ou ao vosso cão se forem como eu.


por Rafael Félix