Esperava um copinho de leite morno para a alma. Em vez disso, obtive um balde de lixívia mascarado de eggnog.

Esperava um copinho de leite morno para a alma. Em vez disso, obtive um balde de lixívia mascarado de eggnog.

2000
Família, Comédia | 1h44min
de Ron Howard, com Jim Carrey, Jeffrey Tambor, Taylor Momsen e Christine Baranski


Ah, o Natal. Uma época mágica, não é verdade? Como não amar as filas infindáveis para entrar no shopping, a azafama absurda que é preparar uma ceia de Natal para uma família inteira em que metade dos seus membros não se falam durante o resto do ano inteiro, ou aquelas maravilhosas músicas festivas às quais ninguém consegue fugir a não ser que se tranque num bunker até Janeiro. Simplesmente mágico.

Este é o bocadinho de Grinch que tenho dentro de mim a manifestar-se após a penosa experiência que foi ver How the Grinch Stole Christmas de Ron Howard, um realizador quase sempre competente com vários êxitos debaixo dos braços como Apollo 13 (1995) e talvez o seu melhor filme A Beautiful Mind (2001). O mais bizarro é que o filme com Russel Crowe que viria a vencer o Óscar de Melhor Filme em 2002, foi antecedido por este completo desastre natalício. O mundo é um lugar estranho.

Whoville é uma pequena vila pitoresca à beira de uma montanha, onde os seus habitantes, os Whos, preparam-se para celebrar o Natal, uma festividade que lhes é incrivelmente querida, preparada com pompa e circunstância com tudo aquilo a que tem direito. Mas no topo da montanha vive uma criatura com uma opinião um pouco diferente do Natal: Grinch. Não suportando ver toda a gente tão feliz com as festas, Grinch faz tudo o que pode para arruinar a alegria deste vilarejo, mas quando conhece uma menina com os pés bastante mais assentes na terra que os restantes habitantes de Whoville, e que ao contrário do resto da vila o trata com delicadeza, a personagem interpretada por Jim Carrey vai começar lentamente a questionar a sua visão sobre o Natal.

O que se espera de um filme de Natal? Por norma, algo family-friendly, algo que agrade aos miúdos e graúdos e que passe boas mensagens e exemplos sobre paz, amizade, amor e todos os substantivos que derivam destes. Não se pode dizer que How the Grinch Stole Christmas não tenta passar estas mesmas mensagens, mas está tão cheio de momentos bizarros e com um tom tantas vezes inapropriado para o público-alvo, que todas essas mensagens ficam perdidas no meio de um mar de lixo. Falamos de um filme que repete vezes sem conta maus-tratos animais, comportamentos perigosos e punch-lines que envolvem adultério, objetificação de mulheres e, mais uma vez, o tema mais recorrente do filme, maus-tratos animais. Nenhum destes elementos assenta bem no contexto de um filme de Natal destinado aos miúdos e graúdos.

E ainda não chegamos à parte mais hedionda deste filme. Porque se o conteúdo é, no mínimo, dúbio, então o que dizer disto em termos visuais? Ron Howard (sim, porque aqui nem posso culpar o Diretor de Fotografia), conseguiu, de alguma maneira, filmar uma das coisas mais feias que vi nos últimos tempos. E eu digo isto em todos os sentidos. Todos. Mas todos mesmo, fiz-me entender?

O design dos sets faz lembrar Batman & Robin (1997), de Joel Schumacher, algo que eu, e provavelmente todas as pessoas que alguma vez viram esse filme, preferiam esquecer, cheio de luzes esquisitas e tecnologia rocambolesca, sem qualquer tipo de charme ou cuidado. No entanto, e por estranho que pareça, esta ainda não é a pior parte desta Joia-da-Coroa do currículo de Ron Howard. Houve alguém que achou uma boa ideia, filmar todo o filme com dutch angles (os ângulos inclinados clássicos), tornando cada frame completamente desequilibrado e horrível de se olhar, retirando qualquer dinâmica ou sentido de perspetiva ao visual da peça.

O melhor que se pode dizer do filme é que a personagem que dá o título ao filme é bem interpretada por Jim Carrey, mas até isso é facilmente perdido no meio de tantos problemas.

Não posso dizer que estava à espera de um grande filme, apenas algum entretenimento para a família, um copinho de leite morno para a alma. Em vez disso, obtive um balde de lixívia mascarado de eggnog. Todo um apanhado de más decisões num filme que pedia mais com um bom realizador e um elenco bastante razoável. 


por Rafael Félix