Embora não tenha sido a experiência mais terrível do mundo, acabam por ser 110 minutos de vácuo para mim.

Embora não tenha sido a experiência mais terrível do mundo, acabam por ser 110 minutos de vácuo para mim.

2019
Biografia, Crime, Drama
de Joe Berlinger, com Lily Collins, Zac Efron, Angela Sarafyan e Kaya Scodelario


Ted Bundy é um nome que marcou a investigação criminal americana e que patenteou pela primeira vez a expressão serial killer. Acusado de 36 homicídios, violações, necrofilia, tortura e todos os atos vis que o ser humano consiga conceber, durante os anos 70 e ao longo de 6 estados, Bundy tornou-se o primeiro homem a ter o seu julgamento transmitido em direto para o mundo inteiro, tornando-se um evento macabramente mediático e estranhamente divisivo dada a natureza dos crimes. A questão é que Ted era um homem bem-falante, charmoso e inteligente. Como seria alguém assim, capaz de tamanhas atrocidades?

É esta pergunta que Joe Berlinger tenta responder. Depois do seu documentário para a Netflix Conversation With a Killer: The Ted Bundy Tapes em que explora os casos, ouve testemunhos de inúmeros detetives, advogados ou amigos do serial killer, desta vez o objetivo é explorar a forma como Ted Bundy criava a sua fachada de homem a transpirar charme e amabilidade e com esta farsa, tanta gente caia nas suas falinhas-mansas e cobriam-no de inocências.

E se este era claramente o objetivo deste filme com um nome insuportavelmente longo (sendo que o título vem da forma com o juiz do caso descreveu os crimes de Bundy antes de o enviar para a cadeira elétrica) a verdade é que esse objetivo teve tanto sucesso como a minha carreira académica em Engenharia Informática: assim-assim no início, e no fim, totalmente inútil.

Embora a atuação de Zac Effron consiga carregar a maioria do filme, pontificando aqui e ali o ecrã com uma presença que tem tanto de charmosa como de inquietante, pouco mais à de muito relevante em Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, porque não consegue fazer mais do que arranhar a superfície no que toca ao mindset de Bundy, talvez devido à própria complexidade da personalidade do mesmo, o filme pouca ou nenhuma justiça faz ao nome do famoso criminoso americano.

Há também uma incoerência relevante. Porque a base do filme é retirada do livro de Elizabeth Kendall (The Phantom Prince: My Life with Ted Bundy), uma ex-namorada de Ted que relata a sua relação com ele e como acompanhou todo o julgamento já após a sua separação, e realmente a obra é vendida exatamente como se fosse vista pelos olhos de Liz, aqui interpretada por Lily Collins. Mas até isso é tão pouco explorado que fica apenas e só a saber a pouco. Salvo uma ou duas cenas, em que se tenta dar uma leve ideia de química entre Effron e Collins, não há nada que faça o espetador manter-se investido nesta relação, ou até na personagem da própria Elizabeth, que tem tão pouco nela além do seu amor por Ted, que continua a ser totalmente inexplicável no contexto do filme, que sempre que ela aparecia no ecrã (nunca mais do que cinco minutos seguidos) eu tinha de mudar de posição na cadeira para não deixar que as pálpebras começassem a ficar demasiado pesadas.

Adicionamos a isto uma total falta de empenho no que toca ao estilo visual ou sonoro da experiência, mais uma personagem que me fez revirar os olhos várias vezes, visto que apenas servia para explicar ao público o que as personagens estavam a fazer ou a sentir (obrigado, eu consigo fazer isso sozinho), e o filme acaba por não ter muito a seu favor.

Embora Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile não tenha sido a experiência mais terrível do mundo, para um nome tão longo, acabam por ser 110 minutos de vácuo para mim. Se não virem não perdem nada, se virem também não ganham nada. Fiquem-se pelo documentário se preferirem, é bastante mais interessante, porque daqui não se tira grande coisa.


por Rafael Félix