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The Lion King(2019)

Há 4 meses | Animação, Aventura, Drama, | 1h58min

de Jon Fraveau, com Donald Glover, Chiwetel Ejiofor, James Earl Jones, John Oliver, Beyoncé e Seth Rogen


Desde que a Disney ficou sem ideias originais para as suas produções e começou a sua jornada de pérfida sucção a cada gota de nostalgia do público pelos seus clássicos de animação, a minha paciência tem se vindo a tornar cada vez mais ténue, uma bolha de algo bastante parecido com uma raiva animalesca tem vindo a aumentar a cada filme, até ao clímax gloriosamente grotesco que foi ver The Lion King, o filme que finalmente rebentou a bolha, em IMAX.

Não é preciso grandes apresentações, toda a gente conhece a história, mas pronto. The Lion King, lançado em 1994 pelas mãos de Roger Allers e Rob Minkoff é, para mim, e com uma margem razoável, o melhor filme de animação que alguma vez saiu da Walt Disney. Seguimos Simba na sua viagem de descoberta do Ciclo da Vida que irá culminar no seu confronto com o seu tio Scar, após a morte de Mufasa, o Rei e Pai do jovem leão, pelo direito de reinar a savana.

Umas palavrinhas sobre o original? Uma até podia bastar: perfeito. Algum do melhor voice-acting de sempre, talvez a melhor banda sonora da carreira de Hans Zimmer e da história, músicas incríveis de Elton Jon, personagens memoráveis, uma animação e realização cheia de personalidade, a transbordar alma e coração em cada frame que passava à frente dos meus olhos de criança e mais tarde os meus olhos de pseudo-adulto.

Isto é o original. E isto também levanta várias questões. Sendo que maior de elas todas é “Porquê?”. Porquê refazer um filme que já é perfeito? Esta é a mais fácil e qualquer pessoa sabe a resposta. Carcanhol. Verdinho. Guita. E mais equivalentes.

No entanto, a pergunta torna-se ainda mais escandalosa quando as suspeitas que se via nos trailers se confirmam. Este é um shot-by-shot com apenas mudanças mínimas do original. Traduzindo: é EXATAMENTE o mesmo filme, mas com animação foto-realista.

Portanto, como é que há tanta gente, mas tanta, tanta gente, ansiosa com este filme? Foge ao meu entendimento. Eu não julgo gostos alheios, cada um procura coisas diferentes num filme, num livro ou num jogo, faz parte do ser humano ter formas diferentes de ver arte e entretenimento, mas para com The Lion King eu não consigo perceber. Sempre que alguém me diz que está mesmo querer ver isto eu pergunto: Porquê? E a resposta normalmente é “Porque gosto do Rei Leão”. Ok, então fica-te pelo original.

Este filme é exatamente aquilo que eu esperava que fosse.

Uma abominação. Uma atrocidade. Um insulto. Um parasita. Algo que devia ser exterminado de qualquer base de dados de filmes, exterminado da história do cinema, e especialmente exterminado da minha memória.

Se a primeira e icónica sequência, The Circle of Life, ainda me conseguiu enganar durante 5 minutos, muito graças à música do ORIGINAL, dado o poder inerente a esta cena, à introdução mágica a este mundo que parece tão real que se torna perturbador até um certo ponto, depois disso foi o descalabro. A partir do momento em que ouço uma voz a sair do leão, tudo se confirmou, e a verdade abateu-se sobre os meus ombros. Somos brindados com imagens de animais que parecem retirados da programação da National Geographic, e vão aqui os meus props para a malta dos efeitos visuais que fizeram aqui algo que ultrapassa qualquer outra coisa alguma vez feita com animação, mas que depois tentam transmitir exatamente a mesma emoção, expressão e personalidade no diálogo que o original. MAS ISSO NÃO É POSSÍVEL COM ESTA ANIMAÇÃO!!!

Não dá. É impossível. As histórias da Disney, esta à cabeça, PRECISAM, da animação usada originalmente, precisam da personalidade, das cores e de toda a liberdade das limitações naturais que a realidade oferece.

Portanto, qual é a lógica de querer tornar uma história destas realista? É por isso que este filme nunca teria qualquer chance de ser bem-sucedido. Era uma derrota antecipada. Era o equivalente a alguém dizer-me que nesta próxima temporada o Famalicão ia ganhar o campeonato. Eu lamento, mas é uma impossibilidade. Embora com toda a sinceridade, mais facilmente eu tinha esperança no Famalicão do que em The Lion King.

Este tipo de animação, não só retirou quase tudo o que havia de bom do original, como adicionou um gigantesco cobertor de horrores sobre esta obra-prima do cinema. É completamente impossível abstrair da forma como o diálogo que sai da boca daquelas personagens icónicas, não corresponde minimamente à expressão que os meus olhos estão a ver. É um assalto aos sentidos.

Isto é por demais evidente nos números musicais, que enquanto no original, cada um deles é magnífico, desde o animado I Just Can’t Wait to be King ao poderoso Be Prepared, aqui não passam de anedóticos animais a abanarem-se de um lado para o outro, mortiço, sem carisma e sem alma, mais uma vez, porque o formato não permite mais que isto. Chegamos ao ponto em que cena da música Can you feel the love Tonight é passada durante o dia. Não há facepalms no mundo suficientes para isto.

Mesmo o voice-acting, que no filme de 1994 foi estrondoso, aqui pareceu chochinho e awkward.  Até que ponto é que isso não é apenas mais um problema trazido pela forma da animação, é discutível, mas para ser justo, Seth Rogen dá a Pumba tudo o que a personagem precisava e Billy Eichner não lhe fica muito atrás com o seu Timon. Todos os outros tanto foram vítimas das circunstâncias, até James Earl Jones parece demasiado velho para interpretar Mufasa para ser sincero, e dói-me dizer isto.

Como podem ver achei este remake lá muito giro. A palavra mais simpática que encontro é “grotesco”, tudo o resto já entra no vernáculo, e eu não vou abusar do mesmo. The Lion King tem uma camada de nhanha nojenta que tresanda a oportunismo e corporativismo a um ponto que eu não queria acreditar que fosse possível. Tudo o que tem de bom herda do original, e além dos inacreditáveis efeitos visuais (mais uma vez reforço, imenso respeito pelos responsáveis, são heróis) pouco ou nada há de positivo a apontar a esta blasfémia. Abjeto. Horrível. Nojento. Pérfido. Não há alma aqui, não há nada, é um vazio.


Rafael Félix
Outros críticos:
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