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Dogtooth (Kynodontas)(2009)

Há um mês | Drama, Thriller, | 1h38min

de Yorgos Lanthimos, com Christos Stergioglou, Michele Valley, Angeliki Papoulia, Mary Tsoni e Hristos Passalis


Os filmes de Lanthimos são geralmente de extremos no que toca à avaliação do público – muitos detestam e outros amam os temas trabalhados pelo realizador grego. Lanthimos é conhecido por criticar a sociedade de formas invulgares, mas criativas, e por uma enorme estranheza intrínseca aos seus argumentos. Em Dogtooth, ou Canino em português, a sua terceira longa-metragem, temos exatamente isso.

Integramos uma família à margem da sociedade. Um pai (Christos Stergioglou) autoritário e trabalhador que sustenta a esposa (Michele Valley), duas filhas (Angeliki Papoulia e Mary Tsoni) e um filho (Hristos Passalis). Só o pai sai do lar, de carro, para trabalhar. A esposa cuida dos filhos e estes ocupam os dias a estudar ou a relaxar em casa. Até que um dia a “mais velha” (as personagens não têm nomes) começa a demonstrar sinais de curiosidade e de “rebeldia”.

Dogtooth trata o isolamento social e uma educação superprotetora e desequilibrada, ao ponto da invenção de palavras ser uma hipótese. Vemos as consequências negativas e bizarras da dinâmica familiar desta família – 3 filhos com corpos já constituídos agem como crianças, porque nunca conheceram mais nada. Isto sem querer revelar muito mais do argumento.

A narrativa é feita de picos: ora a tensão aumenta, ora explode – e nós agarramo-nos atentamente a tudo. O segredo está mesmo em ficarmos imersos na história e isso, por mais estranho que possa parecer, realmente acontece. O universo do filme tem os vários elementos equilibrados e não é previsível. Estamos constantemente a estranhar e a querer descobrir mais. É fascinante e incómoda a anulação da liberdade de aprendizagem da realidade social.

A enorme casa contrasta com o clima de claustrofobia associado a uma educação incompleta e desvirtuada. A superproteção torna-se numa verdadeira censura que castra a personalidade dos personagens – por falta da socialização têm até bastantes comportamentos irracionais, próximos da animalidade. Esta sensação é captada também pela forma de filmar do realizador – em muitas cenas os personagens aparecem com o rosto cortado da tela. Esta escolha reforça não só a desumanização das figuras, como também se adequa ao lugar onde a câmara estaria se tivesse a gravar uma criança.

A grande falha do filme está, a meu ver, no seu ritmo. Apesar de nos manter interessados, demora a ter elementos disruptivos na história. Além disso, esses momentos contam-se por uma mão. Tudo por mais chocante que seja é gravado calmamente, com sequências longas que levam o espetador a um sistemático desconforto.

Posto isto, Dogtooth não se adequa às pessoas mais sensíveis, muito menos a quem não tiver mente aberta. Representa exatamente aquilo que o cinema possibilita: um universo diferente, com regras próprias que sugam o individuo e o fascinam.


Rafaela Teixeira
Outros críticos:
 Bernardo Freire:   8
 Alexandre Costa:   8