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Doctor Sleep(2019)

Há 14 dias | Terror, | 2h32min

de Mike Flanagan, com Ewan McGregor, Rebecca Fergurson, Kyliegh Curran e Jacob Tremblay


Há pessoas que se põem a jeito para falhanços abismais. John Boorman quando aceitou realizar The Exorcist II: The Heretic (1977), Jon Fraveau quando aceitou realizar a cópia zombificada de The Lion King (2019), e Mike Flanagan, que na ressaca do êxito de IT (2017) (outra adaptação de Stephen King da Warner Bros.) aceitou realizar e reescrever um argumento pré-existente da sequela de um marco da história do cinema, realizado por um dos melhores realizadores de sempre (senão o melhor): The Shining (1980), de Stanley Kubrick.

Com isto dito, Gerald’s Game (2016) foi um trabalho extraordinário de Flanagan e The Haunting of Hill House (2018), embora com os seus problemas, demonstrou uma realização extremamente sólida. Portanto, se é para escolher alguém do Terror mais mainstream, Doctor Sleep dificilmente podia estar em mãos mais competentes.

Doctor Sleep, baseado no livro de Stephen King do mesmo nome, segue Danny Torrance (Ewan McGregor) 40 anos depois dos eventos catastróficos no Overlook Hotel. Danny, caído nos mesmos vícios alcoólicos do pai, decide começar o seu processo de sobriedade usando o seu shine para ajudar idosos numa casa de repouso, aliviando-lhes o peso que o medo de fechar os olhos pela última vez pode trazer. Mas enquanto isto acontece, uma espécie de seita de nome The Knot, preenchida por algo parecido com humanos, procura pessoas com as mesmas habilidades de Danny para, à falta de palavra melhor, se “alimentar” do seu shine, prolongando a sua vida indefinidamente. Quando os caminhos de Torrance e de uma jovem chamada Abra se cruzam, e esta se torna o alvo deste grupo pelos seus poderes, Danny terá de enfrentar o seu passado para conseguir salvar a sua companheira de um destino tortuoso.

Sejamos francos, esperar que este filme consiga sequer ser o cordão dos sapatos de The Shining é, além de ingénuo, absurdo. Um dos melhores do seu género feito por um dos melhores de sempre (para mim o melhor a par de Kurosawa) é simplesmente inglório esperar que Flanagan conseguiu-se pelo menos equiparar-se ao trabalho de Kubrick.

Ewan McGregor não fascina mas também não compromete como este Danny Torrance a recuperar de um trauma gargantuesco e que se arrastou para a sua idade adulta, embora toda esta luta contra o vício não tenha sido a coisa mais genuína que seria possível, é o “alcoolismo de cinema” se é que se pode chamar isso.

No entanto, os filmes divergem nesta vertente. Enquanto The Shining não se apoia apenas no sobrenatural, e é muito mais um filme focado nas suas personagens a descender à loucura, Doctor Sleep é um filme com a sua narrativa bem marcada e desde o primeiro minuto mostra que é um filme que vai abraçar por completo o fantástico.

E talvez seja aqui que está o meu maior problema. Porque há alturas em que este filme se torna uma homenagem escarrapachada ao filme de Kubrick, embora sempre com respeito e até alguma mestria, acabando por tornar-se uma matemática difícil de fazer na minha cabeça. Porque tenho duas histórias que nada têm a ver, a partilhar pontos e imagens absolutamente icónicas, mas com dois tipos de filme diferentes. É um conflito complicado de resolver e nem sempre pendeu a favor do tento de Flanagan, contudo, o esforço e principalmente a coragem é de louvar aos Deuses todos, porque foi um risco incrível, que até acabou por não correr totalmente mal (e era provável que corresse).

É pena que tenha de dizer que as melhores alturas do filme são retiradas diretamente do seu predecessor, mas acaba por ser uma triste verdade. Não consigo chegar ao ponto de isso ser negativo, porque é verdade que se tira bastante da realização do Mestre, mas é sempre bem usada, e nunca soa a oportunismo ou preguiça, e mais a uma homenagem. Só que também não posso dar méritos imensos por algo que não é uma ideia totalmente do realizador da sequela.

E um aparte, há um uso de tal modo exaustivo daquele efeito que tão bem conhecemos do bater do coração que passou a tornar-se uma piada de mau gosto a partir de uma certa altura.

Embora com personagens menos interessantes e uma história um pouco mais simples e atual, a performance besuntada de carisma de Rebecca Fergurson, nível épico de badassarismo de  Kyliegh Curran e uma realização, em especial quando Flanagan fez questão de pedir imagens emprestadas a The Shining, que é de fazer babar qualquer fã do clássico de 80, acabam por compensar e tornar Doctor Sleep um filme fácil de se gostar, mas não dando muito espaço para o chegar a amar. É o equivalente ao “eu gosto de ti, mas só como amigo”. 


Rafael Félix
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