Diferente do habitual, intenso, dramático, lento e bizarro (mas não tanto quanto eu desejava), acaba por se afirmar capaz de dividir opiniões.

Diferente do habitual, intenso, dramático, lento e bizarro (mas não tanto quanto eu desejava), acaba por se afirmar capaz de dividir opiniões.

2018
Terror, Mistério | 2h32min
de Luca Guadagnino, com Dakota Johnson, Tilda Swinton, Mia Goth e Angela Winkler


Numa época em que diversos clássicos recebem novas adaptações através de remakes, reboots ou sequelas, Luca Guadagnino, o realizador do aclamado Call Me by Your Name (2017), entrega-nos a nova versão de Suspiria (1977), uma obra realizada por Dario Argento, que adquiriu o estatuto de filme de culto.

 

Na nova versão situada nos anos 70, seguimos a talentosa jovem bailarina, Susie Bannion (Dakota Johnson), que abandona Ohio para se juntar a uma academia de dança em Berlim. Conforme a nossa protagonista demonstra o seu talento, estranhos acontecimentos assolam os corredores daquele edifício, fazendo com que Susie e as suas colegas desconfiem que estão a ser manipuladas por um grupo de poderosas bruxas.

 

Refilmar um clássico consiste sempre numa missão extremamente difícil. É necessário satisfazer os fãs do original e ao mesmo tempo ir de encontro a um novo público. Pessoalmente, “coloco sempre um pé atrás” quando anunciam um remake. Não gosto de situações em que sinto que se limitaram a copiar frame por frame, sem acrescentarem quase nada de novo. Contudo, fiquei satisfeito quando vi material promocional e constatei que Suspiria consistiria numa nova abordagem. Tornando-se num dos filmes mais aguardados de 2018.

 

No campo da cinematografia, distancia-se da obra de Dario Argento, que utilizou tonalidades coloridas, que nos remetem aos vitrais das igrejas. Por sua vez, esta nova versão submete-nos a uma belíssima fotografia ruidosa, com base em tons frios e de terra. Tudo isto se conjuga com uma direção artística única, fornecendo uma estética distinta, capaz de despertar uma identidade visual. Confesso, que vibrei com a fotografia e com os planos selecionados para diversas cenas. Quase que é possível sentirmos algumas nomeações aos Oscars de 2019, nas categorias técnicas.

 

Thom Yorke, vocalista dos Radiohead, é o responsável da banda sonora. Por vezes, esta ecoa em tons melódicos, como também chega a parecer algo experimental. Tanto consegue assumir-se eficaz durante determinadas cenas, como noutras não se adequa à ação que estamos a ver. Não a considero fraca, está longe de o ser, só creio que a seleção musical não permite uma total imersão na narrativa e no ambiente que observamos. Deveriam optar por algo mais sinistro, como os sons minimalistas utilizados em The Nun (2018) ou Hereditary (2018), que oferecem intensidade às situações de medo ou de suspense.


A nível narrativo, Suspiria dá-nos um sabor agridoce. Entrega-nos uma história mais elaborada, adulta, lenta, realista e negra, contudo, também explora alguns personagens secundários até à exaustão, sem conseguir desenvolver outros. O argumento é interessante, acaba por fugir à premissa do original, não possui receio de adicionar uma visão política, mas perde-se na multiplicidade de subplots.

 

Existe um poderoso elenco feminino a lutar por dar alguma complexidade às suas personagens, contra um argumento rico, mas desconexo entre si. Tilda Swinton está fantástica nos seus três papéis, Dakota Johnson surpreende um pouco ao mostrar que pode ir muito mais além da interpretação insossa que constatámos em Fifty Shades of Grey (2015), assim como, a belíssima Mia Goth continua a apresentar um enorme talento, apesar de continuar a optar por “estranhos” papéis.

 

Diferente do habitual, intenso, dramático, lento e bizarro (mas não tanto quanto eu desejava), acaba por se afirmar capaz de dividir opiniões. Possui elementos que o tornariam numa obra-prima, mas também cometeu erros que podem não agradar à maioria dos espetadores ou a quem apreciou a versão original. Talvez um dia, seja congratulado com o estatuto de cult classic e receba um remake que não cometa os mesmos erros.

 

Esteticamente único e distinto, Suspiria peca por não saber equilibrar um argumento demasiado complexo e por uma banda sonora, que apesar de boa, não se adequa ao tom sombrio da história. É uma releitura diferente do original, quase incomparável. Quem nunca viu a longa-metragem de 1977, poderá questionar-se perante algumas dúvidas deixadas nesta adaptação.


por Pedro Quintão