É difícil fazer de assuntos tão trágicos, algo tão belo, mas Pawlikowski mostra que é possível e dificilmente o podia ter feito melhor.

É difícil fazer de assuntos tão trágicos, algo tão belo, mas Pawlikowski mostra que é possível e dificilmente o podia ter feito melhor.

2013
Drama | 1h22min
de Pawel Pawlikowski, com Agata Trzebuchows, Agata Kulesza e David Ogrodnik


A caminho da sua segunda nomeação para o Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira com Cold War (2018), Pawel Pawlikowski não é um estranho por estas paragens. Antes deste seu mais recente trabalho, venceu este mesmo prémio com Ida em 2014, estando também nomeado para Melhor Cinematografia, um ano ingrato para se estar nomeado, dado que teve de competir com Birdman (2014).

Anna é uma noviça num convento polaco durante os anos 60 e prepara-se para emitir os seus votos. Mas a jovem, tendo sido criada no convento depois da sua família a ter deixado lá em bebé, precisa de se conectar com o último parente vivo, a tia Wanda, que havia recusado criá-la antes de ela ser entregue aos cuidados das freiras. Como que para deixar tudo “em pratos limpos” antes de se entregar por completo à sua nova vida de total devoção a Deus. Sendo assim, parte em viagem para conhecer a tia e conhecer mais sobre as suas origens e os seus pais. Isto irá provocar um conflito entre com as ideologias de vida de Anna e o passado da sua família, tornando-se este filme uma jornada interior, não apenas da noviça, mas também de Wanda.

Vamos começar por uma das normas mais básicas do cinema, o centro de interesse, e vou apenas referir o estritamente necessário para demonstrar onde quero chegar, ignorando a regra dos três-quartos. No enquadramento, o centro de interesse é a área para a qual o olhar do espectador é dirigido e é suposto ser realçado das mais diversas formas, desde a luz, cor ou movimento. Ao utilizar o formato de 1.37 : 1 (traduzindo, o filme é filmado dentro de um quadrado), permite aproximar mais as personagens, tanto umas das outras, como do próprio espetador, dado que, inevitavelmente, as pessoas do outro lado do ecrã estão mais próximas do centro, onde o olho humano tem tendência em focar-se (eu sei que estou a tomar muito do vosso tempo, não desistam de mim agora, estou quase lá).

O interessante é que o realizador polaco inverte por completo estas regras e consegue contar toda uma história através apenas do aspeto visual do filme, mais especificamente, na maneira como distribui as suas personagens no enquadramento, especialmente Anna. É fácil notar que que a nossa personagem principal está quase sempre colocada a um canto do frame, frequentemente com muito espaço vazio acima da sua cabeça e em certas ocasiões até é posta parcialmente fora do ecrã, para reforçar isto, o filme é praticamente na sua totalidade feito com a câmara estática, existindo apenas uma cena em que temos um operador de câmara no ombro, e acreditem em mim, tem todo um propósito.

É aqui que o visual-storytelling faz grande parte do trabalho. Anna é como que uma tela em branco, viveu a vida toda num convento, nunca conheceu uma realidade que não fosse a da pura devoção a Deus e a fraternidade das freiras. E a maneira como a cinematografia é montada, dá ideia que Anna está constantemente a ser pressionada para fora do ecrã por uma entidade superior, e há medida que o filme se desenrola e a noviça se abre ao mundo, vai tentando lutar por espaço na tela, até um clímax de tal libertação que se assemelha a um grito silencioso ao espetador.

É também interessante perceber que num filme tão curto, de apenas 81 minutos, Pawlikowski tenha conseguido inserir tantos temas. Entre a nossa personagem principal e a tia, uma antiga juíza do pós-Guerra nos anos 50 na Polónia (duas atrizes que se transformaram completamente nestas personagens), são refletidos inúmeros temas, e todos eles com profundidade o suficiente para sentirmos o peso deles nas pessoas que vemos no ecrã, porque enquanto Anna trava várias batalhas interiores desde o equilíbrio entre o seu legado e a sua educação, até aos simples prazeres que a vida fora do convento lhe oferecem, também Wanda carrega as consequências da guerra nas suas costas, sendo ainda assombrada pelos fantasmas que deixou tantos anos antes, uns voluntariamente condenados por ela, outros nem tanto. Uma imensidão de assuntos, numa peça que parece tão curta e silenciosa.

Ida é mais do que um filme sobre a viagem destas personagens. É um filme sobre fé, é um filme sobre a guerra e é filme sobre legado, mas é, principalmente, um filme que explora o que move o ser humano aquando da tragédia. É difícil fazer de assuntos tão trágicos, algo tão belo, mas Pawel Pawlikowski mostra que é possível e dificilmente o podia ter feito melhor.


por Rafael Félix