Diamantino é uma coisa meio esquisita, não há outra forma de o dizer.

Diamantino é uma coisa meio esquisita, não há outra forma de o dizer.

2018
Comédia, Drama, Sci-Fi
de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt com Carloto Cotta, Cleo Tavares, Anabela Moreira, Margarida Moreira e Carla Maciel


Ter um filme português a vencer o que quer que seja em Cannes, mesmo que fosse o grande prémio para “Un Trés Bien Bacalhau” já seria de se enaltecer, mas vencer Un Certain Regard (uma competição paralela à competição oficial para filmes peculiares e realizadores menos conhecidos) foi sem dúvida um feito incrível para o cinema português. Mais incrível ainda é ter sido com um filme tão…diferente (?)

Diamantino (Carloto Cotta) não é um jogador de futebol qualquer, é o melhor do mundo, e num momento crucial para o seu país, falha um penalti no último minuto do Campeonato do Mundo, trazendo assim ao fim a sua carreira desportiva e torna-se alvo de chacota de uma nação. À procura de um propósito na vida, decide adotar um refugiado e dar-lhe todo o amor que um pai pode dar. E assim chega ao seu lar, Rahim (Cleo Tavares) um jovem moçambicano que é na verdade uma agente do governo chamada Aisha que pretende provar que Diamantino é um criminoso. Pelo meio há experiências genéticas, cães fofinhos e gémeas malvadas. Há de tudo. 

E se calhar é esse o principal erro de Diamantino, há de tudo. Se eu não me perdi, há entre 3 e 4 histórias a acontecer em paralelo, e se dividirmos isto por 90 minutos, escusado será dizer, que as coisas não estão tão bem atadas como deviam. Há personagens que se perdem pelo caminho, plot devices (acontecimentos que mudam o rumo da história) que não fazem muito sentido e plot lines que são iniciadas, mas nunca com intuito a serem exploradas novamente. Uma completa sopa-da-pedra narrativa, tudo o que foi encontrado para pôr numa história, foi atirado lá para dentro sem pudores, foi benzido e esperou-se pelo melhor. No final fica uma sopinha meia estranha, mas passado umas colheres e algumas caras feias ou torções de nariz, a coisa lá passa na goela com menos dificuldade. 

Já que vamos lançados com as metáforas culinárias, cá vai mais uma. Eu vou tentar definir Diamantino. Parece Brazil (1985) de Terry Gilliam, mas se este fosse nascido em Alfama, tivesse um gosto pouco saudável por Vinho do Porto e Pastéis de Belém e gostasse de apanhar tosgas a ver a bola com os amigos no café. É toda uma panóplia de referências sem fim. Desde as parecenças gritantes no físico entre Cotta (que é facilmente o melhor ator em todo o filme) e Cristiano Ronaldo, ao Brexit e ainda conseguimos dar um cheirinho a D. Sebastião. 

Diamantino é uma sátira de um Portugal que não existe, mas que pega em tudo o que acontece em cada canto do planeta e insere-o neste pequeno pedaço de terra que é o nosso país e faz dele uma amostra representativa de todas as desgraças que se andam a passar por aí. 

Levar Portugal ao mundo, trazendo o mundo para Portugal. Esta foi a ideia. E resultou até certo ponto, mesmo as normais limitações técnicas que os filmes portugueses têm, maioritariamente devido às restrições orçamentais, aqui foram utilizadas com algum charme e tom de brincadeira, os maus efeitos visuais e o aspeto às vezes sujo do filme, funcionam a favor do tom satírico que este está a tentar tocar.

Diamantino é uma coisa meio esquisita, não há outra forma de o dizer. Não é perfeito nem de perto nem de longe, mas a verdade é que mesmo pedindo emprestadas referências de todo e mais algum lado, é uma peça completamente única e que TODOS, deviam dar uma chance. Se possível nas salas, deem dinheiro a esta malta, eles trabalharam para o merecer. 


por Rafael Félix