Desinteressante e presunçoso, Velvet Buzzsaw é um grande pé em falso de Gilroy.

Desinteressante e presunçoso, Velvet Buzzsaw é um grande pé em falso de Gilroy.

2019
Terror, Mistério, Thriller
de Dan Gilroy, com Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Zawe Ashton, Toni Collette, Natalia Dyer, Daveed Diggs e John Malkovich


Desde Nightcrawler (2014), a estreia do realizador e argumentista Dan Gilroy, que tenho acompanhado atentamente o seu trabalho. É um daqueles começos de carreira que exaltam para ver tudo o que fará a seguir, com uma performance de Jake Gyllenhaal inesquecível. Seguiu-se Roman J. Israel, Esq. (2017), que arrefeceu um pouco o meu entusiasmo. Mas nada fazia prever Velvet Buzzsaw, um autêntico balde de água fria na minha escala de admiração pelo realizador.

Gyllenhaal volta a ser cabeça de cartaz. Desta vez interpreta um crítico de arte excêntrico chamado Morf Vandewalt, cujas análises podem elevar ou desfazer uma carreira. Uma relação frustrada leva-o a procurar consolo em Josephine (Zawe Ashton), uma colaboradora numa galeria que pouco tempo depois encontrara um vizinho morto no seu bloco de apartamentos. Dentro do apartamento do seu vizinho encontra uma imensidão de pinturas que nunca tinham sido descobertas. O rendimento das pinturas torna-se uma maldição para quem se tenta aproveitar do talento alheio.

O filme conta com um vasto elenco de nomes como Rene Russo, Toni Collette e John Malkovich a representar personalidades do mundo das artes. É uma clara tentativa de fazer sátira a um nicho que tem muito por onde pegar. São explorados sentimentos como a ganância, a auto-intitulação e a cegueira que muitas vezes condiciona as autoridades artísticas. Tudo isto é percetível mas raramente é executado com perícia.

Ainda que a direção de fotografia seja consistente e ocasionalmente criativa, falta articulação à narrativa. As cenas parecem inconsequentes, sem culminação. Parte devido a um argumento tenro e prolífero em personagens, parte devido à falta de cuidado na montagem. Quando quer chamar à atenção, a montagem é eficiente. Mas as transições mais corriqueiras são abrutas e não favorecem a continuidade da história.

No entanto, é quando os tardios elementos de terror começam a surgir que Velvet Buzzsaw revela as suas maiores fragilidades. Nitidamente inexperiente no género, Dan Gilroy orquestra cenas de suspense ao estilo de Final Destination (2000), onde as mortes apresentam uma inevitabilidade cómica. O entretenimento é deveras limitado neste aspeto.

Onde não parece haver limites é no talento de Gyllenhaal, que ao recitar com fervor frases como "A admiração que tinha pelo teu trabalho evaporou-se completamente!", assegura os melhores momentos do filme. O resto do elenco faz um trabalho prestável com o material que lhe é dado.

É um grande pé em falso de Gilroy. Uma tela que tem algo a dizer sobre a arte, a atividade crítica e egos inflamados, exposta de forma desinteressante e presunçosa. Contudo, não posso deixar de saudar a coragem do realizador por sair da zona de conforto. Uma nota final para um filme que, apesar de não ser bem-sucedido, procura oferecer uma combinação de géneros fresca.


por Bernardo Freire