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Waves(2019)

Há 21 dias | Drama, Romance, Desporto, | 2h15min

De Trey Edward Shults, com Kelvin Harrison Jr., Taylor Russel, Sterling K. Brown, Renée Elise Goldsberry e Lucas Hedges


Já o disse em críticas anteriores. A A24, neste momento, é a produtora mais interessante para se seguir. O estúdio responsável por dar voz Robert Eggers, Ari Aster ou aos Safdie, tem aqui uma nova estrela. Não que Krisha (2015) e It Comes at Night (2017) não mostrassem que Trey Edward Shults era um realizador que devíamos ter debaixo de olho, mas Waves vai mesmo cimentá-lo como um dos melhores desta nova geração de cineastas.

A história centra-se numa família afro-americana nos subúrbios do estado da Flórida, liderada por um pai controlador (Sterling K. Brown) que pressiona o filho (Kelvin Harrison Jr.) até ao seu limite, físico e psicológico, para conseguir uma bolsa como atleta de Wrestling na Universidade. Mas quando uma lesão ameaça acabar com a carreira do jovem e a pressão começa a quebrá-lo, toda a família será arrastada para eventos cataclismos em que vai ter de aprender a lidar com a perda, o perdão e o crescimento da pior maneira possível.

Há filmes que só precisam de cinco minutos para nos convencer. Tenho ideia que Waves não precisou de tanto tempo. Desde a primeira sequência em que a câmara gira no interior do carro, ao som de Frank Ocean, com cores gritantes e personagens carismáticas, que estava rendido.

As duas horas e quinze minutos voam, navegando por diferentes tipos de emoções e atmosferas, sempre pautadas pela belíssima banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, que serve quase como um “amplificador emocional”. Não há um único momento neste filme que seja de qualquer forma previsível ou menos importante. Cada cena, cada frame acrescenta ao anterior, e cada imagem e cada linha de diálogo que estejamos a ver na primeira metade do filme, vai-se entrelaçar, quase poeticamente, na segunda.

Digo isto porque existe uma estrutura pouco habitual e habilmente montada, que é talvez a chave do sucesso do argumento de Shults, além do quão orgânicas e realistas são as personagens e as suas relações. A meio do filme, existe uma total mudança de direção, como que uma inversão de marcha cinematográfica, na qual não me vou alongar, porque merece a total atenção de qualquer pessoa que se deixe mergulhar em Waves, mas que oferece uma experiência emocional de todos os modos diferente daquela que eu esperava quando a narrativa começou a caminhar para algo que eu achava que sabia o que era.

Em vez disso o realizador tira-nos o tapete com um filme que além de conseguir oferecer imagens de uma beleza inarrável, ainda conta as diferentes histórias dos diferentes elementos da família, que, cada um da sua forma, aprendem a viver com o seu falhanço, as suas perdas, os seus arrependimentos, captando a crónica intemporal sobre a pressão de ser um filho, e da delicada tarefa que é ser pai. Há um cruzamento de todos os seus caminhos e cada bocadinho que fomos aprendendo de uma personagem, é possível ver no crescimento das outras em seu redor, e isso é feita de uma forma tão invisível que é fácil esquecer o quão absurdamente difícil escrever um argumento tão genialmente montado, que diz tanto com uma frase, como com a composição de um frame ou uma escolha musical inesperada e certeira.

Trey Edward Shults excedeu-se a ele mesmo, e foi a minha grande surpresa no que toca ao ano passado, com um dos filmes mais arrebatadores de 2019. Emocional, primoroso, estranhamente tenso, mas sempre de coração cheio, Waves declama uma poesia visual sobre crescimento pessoal e laços familiares que tem tanto de terrivelmente belo como de assustadoramente trágico, oferecendo uma completa obra de cinema no seu estado mais puro, e sem dúvida mais intenso.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Raquel Lopes:   9
 Alexandre Costa:   9