De facto sonhar, imaginar é para todas as idades e, por vezes, o imaginário consegue ser muito melhor que a realidade, ultrapassando-a.

De facto sonhar, imaginar é para todas as idades e, por vezes, o imaginário consegue ser muito melhor que a realidade, ultrapassando-a.

2019
Comédia, Drama, Fantasia
de Brie Larson, com Brie Larson, Samuel L. Jackson, Joan Cusack, Bradley Whitford e Mamoudou Athie


Unicorn Store apresenta-nos ao mundo real em tons coloridos, pela mão (literalmente) de Brie Larson. A nossa Captain Marvel estreia-se com os seus dotes de realização ao mesmo tempo que serve de protagonista nesta longa-metragem.

Kit (Brie Larson) é uma jovem adulta especial que ainda vê o mundo com muita ingenuidade, inocência e até alguma infantildade. Apesar de alguns momentos da história, este facto ser exagerado, não deixa de ser algo característico e adorável na personagem, estando presente nos mínimos detalhes como a decoração do seu quarto, na cave dos pais (Joan Cusack e Bradley Whitfield), e até mesmo nas suas roupas coloridas. Inicialmente vemos uma Kit empenhada numa escola de artes em busca do seu sonho, mas em poucos instantes percebemos que aquele não é o seu destino, sendo rejeitada pelos avaliadores de arte. Regressa, então, para casa dos pais e demora algum tempo a ter vontade de fazer seja o que for, passando o tempo no sofá a ver televisão. Um dia por pressão dos pais e por não querer ser uma desilusão, inscreve-se para um emprego temporário numa empresa. Por momentos parece-nos que se está a adaptar à vida adulta “normal” e a ter sucesso, mas será que o seu verdadeiro eu não virá ao de cima? Tudo fica mais interessante quando recebe um convite para uma misteriosa loja, onde se encontra com um vendedor peculiar (Samuel L. Jackson) e as coisas começam a ter outro rumo. A jornada de Kit, para cumprir o seu sonho de infância, vale a pena ser acompanhada.

O argumento, tal como Kit, é diferente. Transmite com alguma naturalidade e leveza as dificuldades que se podem sentir na adaptação à vida adulta, momento que geralmente coincide com períodos de maior pressão, ansiedade e perda da magia que na infância existia na nossa imaginação. Sentimos que estamos perante a mente de uma criança, quando na verdade é de uma jovem adulta que está a tentar encontrar o seu caminho e sentido na vida, sem deixar de ser ela mesma. É uma mensagem interessante que abre portas para a reflexão do espectador. De facto sonhar, imaginar é para todas as idades e, por vezes, o imaginário consegue ser muito melhor que a realidade, ultrapassando-a.

A realização de Larson não apresenta falhas, faz no geral um bom uso da câmara. A exposição de luz e a paleta de cores também foi bem trabalhada. Mas é no retirar do melhor do elenco que ela se destaca.

Brie Larson encarna esta personagem como se estivesse a recuperar os seus próprios momentos de infância que ficaram perdidos. Samuel L. Jackson mostra o seu lado mais divertido. Mamoudou Athie (Virgil, amigo de Kit) mostra como o homem pode ter uma representação diferente da habitual e Joan Cusack (mãe da Kit) arranca facilmente sorrisos, mesmo que o argumento não a ajude muito. A comédia está mais virada para Brie e Samuel, mas não é totalmente eficaz.

Existem alguns problemas ao nível de ritmo que tornam o filme cansativo e o facto de ser confuso nas suas ligações também não ajuda. Achamos que está a seguir um rumo e de repente é algo totalmente diferente. Sim, isso pode ser visto como surpreendente, mas não é esse o caso, pois o que é dado acrescenta pouco. A meu ver, apesar das tentativas para nos colocarmos no lugar de Kit, esse efeito não ocorre totalmente.

A banda sonora incomodou-me em alguns momentos em que era totalmente dispensável. Em vez de me aproximar do filme, funcionou como uma inquietante distração.

De qualquer modo, é o típico filme cute e heartwarming que nos mostra que crescer pode ser divertido, mas que também nos pode fazer esquecer aquilo que realmente importa.

Unicorn Store lembra-nos que podemos ser nós mesmos e que nunca seremos uma desilusão se aceitarmos quem somos e quem queremos ser. Embora possamos nos sentir perdidos, eventualmente iremos encontrar o nosso caminho e ser felizes. Nunca somos demasiado “velhos” para sonhar.  A idade é um número, a mente é que importa e essa pode permanecer jovem para sempre.


por Rafaela Teixeira