Dá um pequenito passo em frente na eterna luta de tentar mudar o paradigma do cinema português.

Dá um pequenito passo em frente na eterna luta de tentar mudar o paradigma do cinema português.

2019
Drama
de Nuno Bernardo, com Igor Regalla, José Condessa, Ana Marta Ferreira, Mina Andala, Sérgio Praia, Almeno Gonçalves e Susana Sá


Apesar dos eternos problemas financeiros, da dificuldade em encontrar salas e, sobretudo, do cada vez mais presente afastamento entre o público e os filmes portugueses, o cinema nacional continua ativo e com vários novos nomes a estrear e por estrear. Em 2018, trouxemos-vos as análises a Soldado Milhões, Linhas de Sangue, Bad Investigate e Carga e em 2019 continuamos a dar oportunidades ao cinema português e já vos é possível ler sobre Portugal Não Está À Venda e Ladrões de Tuta e Meia. Permitam-me, então, que vos fale do mais recente nome do nosso cinema, que acabou de estrear.

Gabriel, da autoria de Nuno Bernardo, fala-nos precisamente de Gabriel Silva (Igor Regalla), um jovem lutador de boxe cabo-verdiano que se muda para Lisboa depois da morte da mãe, para a casa da sua tia Alice (Mina Andala) e do seu primeiro Alexandre (Eduardo Lima), na esperança de poder reencontrar o seu pai (Ângelo Torres), um antigo pugilista a quem todos perderam o rasto.

Num tom claramente mais pesado e negro que a esmagadora maioria dos filmes nacionais, Gabriel aborda vários temas que não nos são, um pouco mais ou um pouco menos, indiferentes. O filme aborda a clara rejeição de um negro acabado de chegar à capital de um país que outrora governou o seu, onde é vítima de racismo à vista de toda a gente, pelos problemáticos residentes em bairros dos subúrbios de Lisboa. Um simples olhar de um negro, naquele bairro, é suficiente para se desencadear uma sequência de injúrias e ameaças de vida.

Foquemo-nos no que é, para mim, o mais importante num filme: a história. Nuno Bernardo escreveu uma narrativa que se distancia muito das atuais apostas portuguesas, apresentando uma história sobre a revolta, a luta pelo que se quer e ama, o não desistir e, ainda, o racismo e a dificuldade em conseguir aceitação. Uma narrativa que salta entre o presente e o passado – se assumirmos o clímax como o presente, e não como o futuro –, para contar as razões e os porquês de Gabriel estar na posição que está.

O grande problema do argumento proposto por Nuno Bernardo é deixar inúmeras questões no ar e não nos dar grandes razões para detestar intensamente Rui (José Condessa), o antagonista do filme com quem Gabriel tem de lutar. Não me interpretem mal, Rui é claramente um energúmeno que merece levar uns quantos jabs no queixo para ver se aprende, mas a única divergência entre os dois é o facto de Rui ser intensivamente racista com Gabriel. Isso e andar de olho em Elisa (Ana Marta Ferreira), que acaba por ser o par de Gabriel, por conveniência, mas nós nunca temos direito a perceber a história de Rui e Elisa, aliás a grande maioria desta storyline é passada off-screen, sem nunca vir a ter uma explicação ou dedução.

E agora vocês perguntam: “Mas ser racista e estar de olho na nossa miúda não é motivo mais que suficiente para ser o vilão?”, e eu respondo: “Ahm… Não, se várias personagens do filme forem também racistas e andarem de olho na vossa miúda.”. Entendem onde quero chegar? É óbvio e claramente percetível que Rui vai ser o grande vilão do filme, pela maneira como é apresentado, mas se analisarmos mais profundamente, Rui não é assim tão diferente de outras personagens que Gabriel nem parece se importar. Num tom mais anedótico, reparem que até o primo de Gabriel, que não tem mais que 8 ou 9 anos, está de olho em Elisa, que por acaso até é a sua explicadora. Avancemos, ainda assim.

Tecnicamente o filme é agradável, com uma realização bastante interessante e com algum ar hollywoodiano que me surpreendeu pela positiva. As cenas de ação estão muito bem coordenadas e conseguidas, parecendo, a certa altura, uma dança entre os movimentos e a melodia.

As comparações a Creed (2015) são quase impossíveis de evitar, por todo o assunto em torno do boxe e da vontade de vingar um pai que outrora foi, também, pugilista. E ainda que Creed e Gabriel tenham muita coisa em comum – quase como que Gabriel tenha sido uma inspiração aportuguesada –, acho que é obrigatório não os colocar lado a lado. Não só pela clara distância a nível orçamental, mas porque Gabriel tornar-se-á uma melhor experiência se não for visto como o “Creed português”, que não o é.

Ao som de Dillaz, Piruka, Wet Bed Gang, ProfJam e outros rappers nacionais, Gabriel não é o melhor filme de todos os tempos, mas à semelhança do que vos disse em Bad Investigate, está muito acima do que se tem proposto em Portugal nos últimos anos. Distancia-se da comédia, dos elencos enormes e dos nomes de peso que irão ajudar na divulgação da obra e junta-se ao drama, a um elenco curto mas com material para trabalhar.

Gabriel parece ser um filme feito por gente que esteve atenta às grandes críticas feitas a filmes como Linhas de Sangue ou Portugal Não Está À Venda, por exemplo, anotando tudo e fazendo um filme que se aproxima mais do que se quer ver em Portugal. Gabriel é um filme com as suas falhas, mas que arrisca com o que pode e, ainda que seja difícil convencer o público a ir ao cinema ver o que é nosso, dá um pequenito passo em frente na eterna luta de tentar mudar o paradigma do cinema português.


por Pedro Horta