Crazy, Stupid, Love. atira uma bola curva às tradicionais comédias românticas lamechas desde a primeira cena.

Crazy, Stupid, Love. atira uma bola curva às tradicionais comédias românticas lamechas desde a primeira cena.

2011
Comédia, Romance, Drama | 1h58min
de Glenn Ficarra e John Requa, com Steve Carell, Julianne Moore, Kevin Bacon, Ryan Gosling, Emma Stone, Marisa Tomei


Crazy, Stupid, Love. atira uma bola curva às tradicionais comédias românticas lamechas desde a primeira cena. Aquele género de filme que frequentemente oferece caricaturas em vez de personagens e piadas fáceis em detrimento de empatia. Aqui não há que temer essas circunstâncias, a maior parte das vezes. Correalizado por Glenn Ficarra e John Requa, o filme procura desenhar personagens e situações relacionáveis que facilitam o investimento na história e nas suas encruzilhadas.

Emily (Julianne Moore) decide por um ponto final no casamento com Cal (Steve Carell) à mesa de um restaurante, quando se preparavam para ter uma das muitas refeições que partilharam ao longo dos anos. Mais tarde, Emily confessa a Cal que o traiu com um colega de trabalho (Kevin Bacon). O que se segue é uma série de reações muito próximas da realidade. Cal fica magoado, os seus filhos tristes e Emily bastante pensativa. Até os seus amigos escolhem um lado.

O conflito é então introduzido em forma de dúvida. As personagens começam a questionar se tomaram as decisões certas e qual será o próximo passo. Eventualmente, Cal conhece Jacob (Ryan Gosling) num bar. Jacob é o tipo de homem que põe dois dedos de conversa com qualquer mulher e consegue fazê-las sucumbir aos seus desejos. Ao perceber a situação de Cal, o mulherengo aceita o desafio de transformar o homem desamparado no reflexo da sua imagem.

O argumentista Dan Fogelman alcança um equilíbrio interessante na escrita de Crazy, Stupid, Love.. Por um lado, não despreza o peso dos desgostos, mas consegue infiltrar com regularidade a dose certa de comédia para contrabalançar a equação. A par com a direção de fotografia de Andrew Dunn, que com o auxílio de efeitos slow-motion arranca mais do que uma gargalhada em momentos específicos.

Onde o filme perde um pouco a sua firmeza é no facto de não proporcionar o devido espaço a todo o elenco para respirar no ecrã. Julianne Moore e Kevin Bacon acabam por ser um pouco desperdiçados, por exemplo. Além do mais, perde algum fôlego no terceiro ato, culminando a história de uma forma típica e pouco criativa. Para não falar de algumas surpresas inesperadas que parecem estar a mais.

Ainda assim, as diversas relações que o filme explora fazem ressonância ao título. O amor é de facto um sentimento de doidos e qualquer pessoa que o tenha sentido ou esteja a sentir vai de alguma forma conseguir relacionar-se com, pelo menos, uma destas personagens, interpretadas com competência por todo o elenco.

Depois de se estrearem com a comédia negra I Love You Phillip Morris (2009), os realizadores Glenn Ficarra e John Requa dão um passo em frente com um projeto mais mainstream, sem perder o apelo cómico do primeiro filme. Crazy, Stupid, Love. retrata, com valor de entretenimento, pessoas comuns à procura daquilo que todos nós desejamos: ser correspondidos e, em última instância, compreendidos.


por Bernardo Freire