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Black Mirror - 5ª Temporada(2019)

Há 2 meses | Sci-Fi, Thriller, Drama |

de Charlie Brooker, com Anthony Mackie, Yahya Abdul-Mateen II, Nicole Beharie, Andrew Scott, Damson Idris, Topher Grace, Miley Cyrus, Angourie Rice e Madison Davenport


Sucedendo ao filme interativo Black Mirror: Bandersnatch (2018), chega a nova temporada de Black Mirror, que por esta altura já dispensa apresentações, mas para quem vive debaixo de um calhau, cá vai: é uma série antológica em que cada episódio incide sobre um evento ou uma história influenciada por algum tipo de tecnologia avançada, seja Inteligência Artificial, Realidade Virtual, Redes Sociais ou transferências de consciência.

A minha opinião generalizada da série, é que tem vindo a ficar cada vez mais fraca com o passar dos anos, talvez porque chegamos a um ponto em que Charlie Broker (criador e argumentista) já percorreu tanto terreno, que possivelmente já não é possível tirar as histórias intricadas, que puxavam sempre qualquer coisa, fosse uma lagrimazita, um esgar de nojo ou uma cara de parvo a olhar para a televisão.

Nas últimas temporadas, com Bandersnatch incluído, a experiência de ver um episódio de Black Mirror passou de um mergulho para o desconhecido, para um bocado de entretenimento inofensivo, sem grande impacto ou inovação.

Esta temporada não é exceção. Vamos falar brevemente dos episódios.

1. Striking Vipers

Protagonizado por Anthony Mackie e Yahya Abdul-Mateen II, conta a história de dois amigos que se reaproximam através de um jogo de combate estilo Tekken, mas em modo Realidade Virtual, em que cada um escolhe a sua personagem e tem as mesmas sensações físicas que a luta oferece. E digamos que a coisa evolui um pouco além de uns murros e de uns pontapés… embora ainda envolva posições extremamente atléticas.

Salvo as interpretações, que acabam por ter de carregar o episódio, não há muito que este episódio ofereça. Lida com insegurança sexual, problemas de identidade e até de género, mas nunca nada parece consequente. É tudo superficial e um toquezinho de desinteressante, embora nunca chegue a ser irremediavelmente aborrecido, lá está, muito por causa do carisma dos atores. Mesmo a tecnologia criativa que já vimos em Black Mirror já viu melhores dias, sendo que fora um ou dois pormenores interessantes no jogo, pouco ou nada de imaginativo oferece.

Come-se.

2. Smithereens

Desta vez obtemos tons de dark comedy num episódio que segue Chris (Andrew Scott) um motorista de uma plataforma semelhante à Uber, sequestra um estagiário da Smithereens, a maior rede social do mundo, e a única exigência que faz é: conseguir falar com o CEO da empresa, Billy Bauer (Topher Grace).

De longe o melhor episódio da temporada (embora isso não seja dizer muito), debruça-se sobre o tema mais relevante do quotidiano: vício nas redes sociais. Este é o centro das motivações da personagem de Andrew Scott, que é absolutamente incrível, mas não é o único tópico trazido neste capítulo. Bem ao estilo de Black Mirror, há algumas caneladas às hierarquias de poder centradas no dinheiro e irrelevâncias das autoridades quando confrontados com grandes companhias. E é por estas coisas que este é o episódio que mais se aproxima da matriz natural da série, misturamos isto com humor afiado e bons performances, e temos algo que não se sente um desperdício de 60 minutos. Só fica a faltar é um sentido de conclusão ou finalidade aos temas, mas dado o standard desta season, eu consigo perdoar.

3. Rachel, Jack and Ashley Too

A fechar esta temporada temos a história de uma estrela pop, que parece ter a vida perfeita, mas na verdade está totalmente deprimida e tem uma agente que apenas lhe está a sugar o dinheiro. Isto acaba por se entrelaçar na vida da sua maior fã, uma miúda adolescente com dificuldades em integrar-se e que vê em Ashley O (Miley Cyrus) tudo o que quer para si, o modelo a seguir digamos. É, esta história parece familiar. Já a vimos milhares de vezes. O twist é que Rachel (a fã) adquire uma boneca que tem a personalidade da cantora, que, entretanto, vai-se tornando viciante, blablabla, o costume.

É previsível, e tem uma quantidade de clichés nada natural à série, como é fácil de ver só na descrição do episódio, e parece não ter nada de novo a dizer, porque que as estrelas de música estão constantemente com problemas de saúde mental, e que estão constantemente a sacrificar a sua integridade artística, e que estão constantemente sobre uma quantidade de pressão, já nós estamos constantemente fartos de saber. Portanto o que é que Charlie Brooke tinha a dizer sobre este tema? Nada.

Pouco ou nada tem de criativo e nem é necessariamente bem atuado, sendo que Miley Cyrus roçou o cringe aqui e ali (embora, para ser justo, também conseguiu, principalmente nos seus momentos mais contidos, alguns rasgos de qualidade), e parece que estamos sempre à espera de uma punch-line ou de um twist que não chega. Constantemente chato para ser sincero. 

Menção honrosa tanto para a referência a IDLES, como para o uso de música dos Nine Inch Nails que me deram os únicos picos de interesse trazidos pelo episódio.

Muito longe da qualidade das primeiras temporadas, e até das mais recentes, Black Mirror continua o seu percurso descendente em direção ao abismo que se começa a tornar a minha indiferença para com a série. O interesse está morto, e não há muito a fazer sobre isso. Mais vale desligar as máquinas e parar enquanto ainda é tempo.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alex Duarte:   9Abrir
 Alexandre Costa:   9
 Rafaela Teixeira:   8
 Margarida Nabais:   9
 Filipe Lourenço:   9
 Rafaela Boita:   9