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The VVitch(2015)

Há 7 meses | Terror, Thriller | 1h32min

De Robert Eggers, com Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie e Harvey Scrimshaw


Se isto não fosse um site respeitável, poderia apelidar-me a mim mesmo de um grandessíssimo “c***s”, mas como isto é um espaço de respeito e cultura, terei de usar o termo mais bonito (para grande pena minha), que é “medricas”.

Até há bastante pouco tempo, eu não via filmes de terror, um pequeno trauma na minha tenra idade deixou-me vulnerável a obras cinematográficas que tentavam mudar a cor do interior das minhas cuecas para um tom mais acastanhado. Há um ano atrás decidi “fazer-me um homem” e enfrentar os meus medos, começando desde aí a tentar compensar o tempo perdido, passando a pente fino os clássicos do horror e as modernices cheias de jumpscares e coisas do género.

Foi pelo primeiro trabalho de Robert Eggers que iniciei esta viagem e embora The VVitch (com dois “V”, não “W”) seja um filme relativamente recente, eu acredito sinceramente que com o passar do tempo se venha a tornar um desses clássicos. Foi a melhor forma de entrar no mundo do terror? Provavelmente não, não sendo propriamente um filme que siga a norma da maioria atual do género, mas já lá vamos.

New England, Estados Unidos da América, 1630. Uma família de Puritanos (uma fação de Protestantes Ingleses) que viajou para o Novo Mundo em busca de novas oportunidades de purificar o Cristianismo, é banida da sua comunidade devido a divergências religiosas e obrigada a viver em isolamento e por sua conta no meio de literalmente, nenhures. A família é constituída pelo casal William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) mais os seus filhos: Thomasin (Anya Taylor-Joy), Caleb (Harvey Scrimshaw), os gémeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson), e um recém-nascido Sam.

Vamos desde já esclarecer uma coisa. Este filme não esconde o seu sobrenatural (ou quase). Desde o inicio que sabemos que uma bruxa raptou o bebé e o levou para a floresta. No entanto, nós sabemos o que aconteceu, mas as personagens não, e há toda uma onda de desconfiança para com Thomasin, a filha mais velha que estava responsável pelo miúdo no momento do desaparecimento. A partir deste momento, vemos este grupo mergulhar lentamente num desespero e discórdia que é praticamente palpável a quem está do outro lado do ecrã.

O Terror é provavelmente o género mais subjetivo de todos. O que puxa aquele nervosinho do medo varia de pessoa para pessoa. Uns adoram os filmes com mais jumpscares, os mais comuns hoje em dia, basta ver o sucesso que é toda a saga The Conjuring, e outros (como eu) preferem o terror mais atmosférico, aquele que se põe debaixo da pele e nos deixa terrivelmente desconfortáveis na cadeira, com um nó no estômago e um ritmo cardíaco desaconselhado por qualquer cardiologista. E é exatamente isto que The VVitch é. Não é sobre sustos baratos provocados por tábuas a ranger, portas a bater ou coisas escondidas no cantinho do frame prontas a saltar a qualquer momento.

O filme foca-se sobretudo no drama familiar envolvido com algumas pinceladas de sobrenatural aqui e ali, sem nunca entrar muito pelo campo do surreal e tentando manter a peça o mais real possível. Prova disso é o cuidado com o detalhe, quase obsessivo, de Robert Eggers para com tornar o filme o mais preciso possível para com o período temporal em que se situa: as roupas foram todas cosidas à mão de forma a ter o mesmo aspeto que as daquela altura, os sotaques, dicções e vocabulário das personagens são totalmente fiéis ao período, foi apenas usada luz natural para iluminar o filme e até a fantástica música de Mark Korven utiliza, na sua grande maioria, instrumentos que remontam ao século XVII.

Estes detalhes permitem ao filme ter uma aura de realismo tão grande que quase se torna fácil acreditar que esta família está realmente em perigo e sob a influência de uma entidade que eles próprios não entendem na sua totalidade. Para ajudar ainda mais à festa, Eggers baseou o seu guião numa mistura de pesadelos da sua juventude e, como indica no poster do filme, folclore de New England, juntado múltiplos escritos e contos da época para montar a sua trama. 
O medo nasce do quão genuína parece a experiência, e dificilmente o podia ter feito melhor. Repare-se que até o nome do filme aparece com duplo “V” e não com “W”, não é um acaso.

A história flui num sentido bastante clássico, pedindo emprestado alguma influência a filmes como The Shining (1980) em que pudemos assistir às personagens a perderem lentamente o seu bom senso e confiança uns nos outros, colocando-se numa situação interessante de convivência, quase num jogo de quem-é-quem numa versão extremamente macabra. Isto provém também dos temas religiosos por onde o filme se passeia visto que o fanatismo desta família, o seu completo terror ao pecado e ao castigo divino é utilizado múltiplas vezes pelo guião de Eggers para guiar as personagens de encontro aos seus pecados originais que iniciaram toda esta cadeia de acontecimentos. É escrita do mais inteligente possível.

Lembram-se de eu ter dito que este filme não esconde a existência de uma bruxa? É verdade, é exposta praticamente nos primeiros 5 minutos do filme. Supostamente assim, seria possível retirar alguma tensão ao filme, visto que já sabemos o resultado que nos espera. E é aqui que o génio de Eggers brilha. Porque mesmo dando descaradamente aquela informação ao espetador, vai brincando com a nossa mente, um pouco como faz com a família de Thomasin, e mesmo sabendo qualquer coisa, vamos sentido a cada frame que se calhar não sabemos é nada. Aquando do clímax do filme, há quase um sentimento de descompressão, tal a tensão e confusão acumulada nos últimos 90 minutos, que ver um ecrã preto com créditos é um completo alívio.

Isto já vai longo, portanto deixem-me resumir The VVitch. Performances fantásticas de todo o elenco, música de arrepiar a espinha, fotografia natural e decrepitamente incrível, uma narrativa fluida e desconfortável e um realizador com talento para dar e vender. Consigo dizer após três visualizações, que nos meus termos, é o melhor filme de terror do século XXI. É o trabalho de um génio que eu espero seriamente que fique marcado como um clássico nos anos que virão. Só espero que sobreviva ao teste do tempo.


Rafael Félix
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   8
 Pedro Quintão:   4
 Sara Ló:   8