Como filme, é imbecil o suficiente para se ver com um grupo de amigos, simplesmente para ser gozado.

Como filme, é imbecil o suficiente para se ver com um grupo de amigos, simplesmente para ser gozado.

2018
Horror, Thriller | 1h40min
de Jeff Wadlow, com Lucy Hale, Tyler Posey, Violett Beane, Hayden Szeto, Sophia Ali e Nolan Gerard Funk


Jeff Wadlow, realizador de filmes mediocres como Kick-Ass 2 (2013) e True Memoires of an International Assassin (2016), junta-se à produtora Blumhouse, companhia de sucesso por trás de projetos como Whiplash (2014), The Visit (2015), Get Out (2017), Split (2017) e o mais recente BlacKkKlansman (2018), para a produção de Truth or Dare. Apesar de entradas menos boas da Blumhouse como Ouija (2014), Unfriended (2015) ou Paranormal Activity: The Ghost Dimension (2015), Truth or Dare consegue ser um dos piores filmes da produtora e um dos piores filmes de 2018.

Um grupo de alunos universitários, liderados por Olivia (Lucy Hale), vão passar férias ao México. Depois de uma semana de festas, são convencidos por um desconhecido a irem a uma igreja abandonada para jogarem Truth or Dare (Verdade ou Consequência). Quando voltam para casa, são perseguidos por uma espécie de versão mortal do jogo, assombrados pelo espírito demoníaco do Verdade ou Consequência. Sim, a premissa desta obra-prima inclui um demónio associado ao jogo mais simples do mundo.

Cada personagem (que rapidamente esquecemos o nome) é visitado por uma presença sobrenatural que assume o corpo de alguém perto deles, transformando a sua cara e o seu sorriso numa mistura de William Dafoe com as caras do videoclip de Black Hole Sun, dos Soundgarden. As regras são simples: escolher verdade ou escolher consequência. Se não responderem morrem, se não disserem toda a verdade morrem, se não executarem bem as consequências morrem. E o melhor de tudo é que foram necessários quatro argumentistas para inventar isto.

Quem será o próximo a morrer? É a pergunta que eles querem que nos agarre ao filme, mas na verdade não interessa. Há tão pouca empatia com as personagens que a certo ponto queria que todos morressem para acabar com o meu sofrimento.

The game is real! Wherever you go, whatever you do, it will find you.

A mecânica de Truth or Dare é extremamente semelhante aos filmes da saga Final Destination (2000-2011). Em ambas as histórias, um ser sobrenatural persegue um grupo de pessoas e cada um tem de enfrentar situações de vida ou morte. A diferença é que nos Final Destination, as cenas das mortes são tão elaboradas e estapafúrdias que se tornam divertidas, independentemente de gostarmos ou não das personagens. Em Truth or Dare, as consequências e as verdades são tão fracas que falham em distrair-nos da bidimensionalidade das personagens, da absurdidade da história e do quão ridículo o efeito visual escolhido para representar o demónio é – descrito até por uma das personagens como parecendo um filtro do snapchat.

O que acontece em Truth or Dare é nada. Em vez de gerar choque ou pelo menos alguns arrepios, decide desenvolver esta espécie de argumento com uma série de revelações ao estilo de uma novela, acerca de personagens que não queremos saber de todo. O filme não é assustador, nem divertido, nem inteligente. Nem os jumpscares conseguiram obter com sucesso. A maior parte das cenas das mortes parecem ter sido feitas às três pancadas e são desinteressantes. Sempre que alguém morre, ninguém se importa – isto inclui o público e as próprias personagens – tudo fica bem nos segundos seguintes.

Carregado de clichés, o guião é realmente ridículo, parece que inventaram as regras e a própria história à medida que foram avançando com as filmagens. Tenta ser intencionalmente assustador, mas falha miseravelmente, tornando-se apenas cómico. E quando pensei que Truth or Dare não podia ficar mais idiota, eis que tenta construir uma backstory para o demónio do jogo, que apenas se torna mais engraçado à medida que mais descobrimos sobre ele.

Vários conceitos e ideias foram colocados em cima da mesa e em vez de serem selecionados, atiraram-nos para o liquidificador e saiu esta embrulhada a que chamam filme. A audiência queria ver pessoas a jogar o jogo mortífero de Verdade ou Consequência, mas a sua execução, isenta de ousadia, faz com que nada seja marcante e com que os jogadores sejam aborrecidos. Onde Truth or Dare bate mesmo no fundo é quando perde tempo a explicar porque é que o jogo assombrado do Verdade ou Consequência faz sentido, e quanto mais tentam mais estúpido parece.

Como filme, é provavelmente imbecil o suficiente para se ver com um grupo de amigos, simplesmente para ser gozado. Truth or Dare é frustrante e o culminar de tudo é despachado com um final que não tem lógica absolutamente nenhuma. Nada funciona e acabamos por desistir. Como é que estes filmes são feitos e distribuídos? É deprimente.


por Sara Ló