Com apenas 81 minutos de filme, Piercing serve-se de um misto de sedução e repulsa para prender do princípio ao fim.

Com apenas 81 minutos de filme, Piercing serve-se de um misto de sedução e repulsa para prender do princípio ao fim.

2018
Horror, Thriller
de Nicolas Pesce, com Christopher Abbott, Mia Wasikowska e Laia Costa


Chamem-me fútil, mas admito o meu fraquinho por exercícios de estilo no cinema. Histórias cuja estética tende a sobrepor-se à substância. Terminal (2018) é um exemplo recente, um filme que foi apunhalado pela maioria dos críticos, mas que não consegui deixar de gostar. Está envolvido em demasiado néon e tem demasiado vigor para não gostar.

É um pouco neste registo que se enquadra o segundo filme do realizador e argumentista Nicolas Pesce: Piercing. Mas neste caso as influências são claras. Desde a música aos cenários, passando pelo conteúdo da narrativa, o filme transparece um tremendo sentido de nostalgia pelo género giallo, que teve o seu auge entre os anos 60 e 80, um estilo de cinema italiano que envolvia constantemente detetives, assassinos, mortes chocantes e nudez.

A história deste thriller erótico, baseada no livro do autor Ryû Murakami, com o mesmo nome, tem uma base bastante simples. Reed (Christopher Abbott) despede-se da sua mulher (Laia Costa) e da sua bebé com o falso propósito de atender uma reunião de negócios fora da cidade. Na verdade, Reed pretende concretizar algo que o tem atormentado há algum tempo: A urgência de matar metodicamente. Mais especificamente, matar uma prostituta (Mia Wasikowska).

Com apenas 81 minutos de filme, Piercing serve-se de um misto de sedução e repulsa para prender do princípio ao fim. A imprevisibilidade e o jogo de poder entre os protagonistas não só potenciam suspense como uma surpreendente dose de comédia negra. Por outro lado, está também a testar os limites do consentimento nos casos de uma noite. Uma circunstância onde é cada vez mais confuso entender as intenções das pessoas.

O mundo fictício envolve maquetes de prédios, casas excessivamente arrumadas e cenários artificiais, mas a técnica de montagem do ecrã fracionado, popularizado pelo realizador Brian de Palma, consegue os seus momentos de destaque. Outro realizador que é invocado em várias ocasiões é David Cronenberg, nomeadamente quando o objeto de terror é o corpo humano.

Apesar de admirar todos estes aspetos, as personagens carecem de facto de uma narrativa que nos faça sentir empatia para com as mesmas. Existe alguma compensação por parte dos atores, que fazem um excelente trabalho nos seus respetivos papéis. São performances essencialmente físicas, com as expressões faciais em primeiro plano e que refletem pessoas à procura de consolo, cada uma à sua maneira.

Pesce teve uma estreia em grande em 2016 com The Eyes of My Mother, e volta a oferecer um trabalho fresco e com qualidade. É bizarro, estilizado e altamente cativante, com interpretações que acrescentam dimensão à história mesmo quando o argumento se recusa a aprofundá-la.


por Bernardo Freire