Colette é mais um affair para o catálogo de Knightley no que toca aos filmes de época.

Colette é mais um affair para o catálogo de Knightley no que toca aos filmes de época.

2018
Biografia, Drama, História | 1h51min
de Wash Westmoreland, com Keira Knightley, Fiona Shaw, Dominic West e Robert Pugh


Sidonie Gabrielle Colette nasceu em 1873 e faleceu em 1954. Foi uma das mais importantes personalidades francesas no que diz respeito à arte do papel e caneta, chegando a ser nomeada para um Nobel da Literatura em 1948. A sua vida icónica chega agora à tela através do realizador Wash Westmoreland, conhecido principalmente pelo vencedor do Óscar de Melhor Filme, Still Alice (2014). Apesar de estar longe de ser material para Óscar, Colette é um filme elegante que oferece umas luzes do que foi a vida da escritora.

Depois de casar com o escritor parisiense conhecido por Willy (Dominic West), Colette (Keira Knightly) muda-se da zona rural francesa onde passou a infância para a glamorosa cidade de Paris. Pouco tempo depois, Willy convence-a a ser sua escritora-fantasma, não recebendo quaisquer créditos pelo seu trabalho. Os livros semiautobiográficos de Colette fazem furor em França, sendo considerados marcos literários do virar do século. A reivindicação pelos seus direitos de autor, assim como a disputa pelos papéis sociais de género, inspiram uma revolução de mentalidades sobre a literatura, moda e expressão sexual.

Num período histórico semelhante, Colette fez em França o que as ativistas em Suffragette (2015) fizeram em Inglaterra. De formas diferentes, várias mulheres disseram "basta", e começaram uma luta contagiosa pelos direitos que até então lhes eram negados. Foram feitos muitos progressos, mas parte dessa luta continua nos dias de hoje.

As semelhanças com o filme The Wife (2017) são inevitáveis, mas enquanto a personagem protagonizada por Glenn Close sofre até ao último minuto, Keira Knightley interpreta Colette com determinação e vigor, capturando a atitude da pessoa que procura encarnar. Habituada a ser protagonista em dramas de época, tais como The Duchess (2008) e Anna Karenina (2012), Knightley está confortável com o guarda-roupa tradicional e cenários que nos transportam e envolvem no período que representam.

Mas tal como a atriz foi uma escolha segura, também o argumento do realizador e dos argumentistas Richard Glatzer (que faleceu em 2015) e Rebecca Lenkiewicz não exploram a complexidade com que Colette desafiou o paradigma. Permanece sobretudo uma abordagem clínica, uma sequência de eventos que tentam esquivar-se das questões mais interessantes. Por exemplo, o que fazia Colette escrever com tanto brio ou ter uma conduta tão pró-ativa.

Posto isto, mantém a coerência e move-se a bom ritmo depois do primeiro terço. O ator Dominic West profere alguns dos diálogos mais eloquentes do filme, conseguindo alguma simpatia da audiência apesar do seu caráter egoísta. O restante elenco secundário não desilude, ainda que as suas participações sejam breves e pouco desenvolvidas.

Colette é mais um affair para o catálogo de Knightley no que toca aos filmes de época. Um filme onde ela revela novamente uma performance exemplar, mas que é limitada pela superficialidade da narrativa. Mesmo não tendo a ousadia da escritora francesa, permanece uma lição histórica relevante filmada com destreza.


por Bernardo Freire