Closer é um retrato frio, cru, cínico e, acima de tudo, realista da sociedade moderna.

Closer é um retrato frio, cru, cínico e, acima de tudo, realista da sociedade moderna.

2004
Drama, Romance
De Mike Nichols, com Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman, Clive Owen


As melhores histórias de amor não são as que acabam bem, são as que nunca acabam. Mais do que um filme que mostra o pior lado do amor e a forma como ele é capaz de corromper quem ousa senti-lo, Closer é um retrato frio, cru, cínico e, acima de tudo, realista da sociedade moderna. Depois do clássico Who’s Afraid Of Virginia Woolf (1966), o lendário realizador Mike Nichols prova mais uma vez que consegue trabalhar de forma exímia adaptações de peças de teatro ao cinema.

Closer narra os encontros e desencontros de dois casais em Londres. Dan (Jude Law) é um jornalista aspirante a escritor que conhece Alice (Natalie Portman) por mero acaso nas ruas de Londres. Os dois apaixonam-se e criam aquilo que parece ser a história de amor perfeita: o romancista promissor e a sua musa. Anna (Julia Roberts) é a fotógrafa contratada para fotografar Dan que, devido a uma série de coincidências, conhece Larry, um dermatologista solitário dado a luxúrias. Sexo, desejo, traições, amor intenso e a falta dele comandam as vidas destas quatro pessoas desprezíveis naquela que é, na minha opinião, uma das melhores histórias de amor do cinema.

Tal como alguém que amamos, este filme é capaz de nos partir o coração sem qualquer tipo de remorsos. Quando se decide abordar um tema tão complexo como o amor, há que ter muita atenção e cuidado na maneira que se escolhe para o fazer. Centenas de comédias românticas optam pela forma fácil e comprovada de retratar o amor como algo vazio, sem profundidade ou essência, transmitindo falsos valores e difundindo realidades utópicas. Closer é inteligente e assertivo, optando por uma abordagem dura, mas necessária, da realidade amorosa. Pode dizer-se, até, que é uma espécie de filme antirromântico, uma espécie de subversão agridoce de clichés românticos e expectativas irrealistas frequentemente difundidos por filmes, livros e músicas.

Começando por enaltecer os aspetos positivos do filme, o meu claro destaque vai para os extraordinários diálogos. Ácidas, cínicas, sarcásticas e inteligentes, as rápidas e constantes trocas de palavras entre os personagens dotam o filme de um ritmo pulsante que nos cativa desde o primeiro minuto e que nos mantém interessados na história até ao último segundo. O guião da autoria de Patrick Marber, o mesmo autor da peça de teatro, não tem medo de retratar o amor como um sentimento maldoso e egoísta, que corrompe o coração, e leva as pessoas a cometer atos atrozes.

Depois, há que falar das fantásticas interpretações dos quatro atores principais. No entanto, o meu destaque vai para Natalie Portaman e Clive Owen que brilham nos seus respetivos papéis. Natalie nutre a sua personagem de uma inocência e vulnerabilidade enganadoras espantosamente credíveis que ocultam a pessoa manipuladora e cínica que se esconde por trás. Clive Owen consegue criar um personagem sádico e manipulador, que usa a sua inteligência em seu proveito.

Em relação aos aspetos menos positivos, embora os personagens sejam todos bem desenvolvidos, os 104 minutos de filme sabem a pouco. Penso que, com mais uns 15/20 minutos e algum maior desenvolvimento de personagem e história, o filme beneficiaria imenso. Algumas sequências parecem um pouco apressadas e subdesenvolvidas. Os lapsos de tempo, ainda que propositais, deixaram margem para mais alguma exploração. Os outros aspetos menos positivos são bastante mais subjetivos. Os elevados níveis de cinismo e realismo (para os mais iludidos, pessimismo) do filme podem ser um problema para algumas pessoas.

Gostaria ainda de fazer uma pequena menção honrosa à música The Blower's Daughter, de Damien Rice, que assenta que nem uma luva à narrativa, iniciando o filme de forma brilhante e encerrando-o com chave de ouro.

À parte sequências menos desenvolvidas, lapsos temporais pouco explorados e níveis de cinismo talvez demasiado elevados para pessoas sensíveis, Closer aborda de forma genial e verdadeira temas como o amor, a traição e a corrupção dos sentimentos. Sem medo de nos mostrar o que não queremos ver e de nos partir o coração no processo, abala qualquer esperança amorosa que tenhamos. É um filme essencialmente necessário que nos faz sentir que é preciso ter cuidado com a próxima pessoa à qual vamos dizer “Olá, estranho”. 


por Filipe Lourenço