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El hoyo (The Platform)(2019)

Há 11 dias | Horror, Sci-Fi, Thriller, | 1h35min

De Galder Gaztelu-Urrutia, com Ivan Massagué, Zorion Eguileor, Antonia San Juan, Emilio Buale e Alexandra Masangkay


O timing de El hoyo é tão certeiro que chega a ser assustador. Em tempos dominados pelos efeitos nefastos do vírus Covid-19, parte da população mundial consome compulsivamente, perde as noções básicas de responsabilidade social e transforma o bom senso em autopreservação. Muitos afirmam ser inevitável que isto aconteça, "é a natureza humana". É difícil argumentar contra estas palavras, o que não falta é entretenimento sobre pandemias que testam e vencem a moral e a ética. O thriller brutal do estreante Galder Gaztelu-Urrutia, não sendo sobre nenhuma doença em particular, coloca em cheque a razão e a emoção para revelar o melhor e o pior da humanidade.

Existem três tipos de pessoas; as de cima, as de baixo, e as que caem". É esta a narração inicial que sucede as primeiras imagens. Cozinheiros preparam um banquete imaculado sobre a supervisão atenta de um homem impiedoso. O destino da comida é uma plataforma com vários níveis, uma espécie de prisão que a certo ponto da história é chamada de "Centro Vertical de Autogestão". É num dos vários níveis que acorda o recém-chegado Goreng (Ivan Massagué), no mesmo andar que Trimagasi (Zorion Eguileor). A par e passo com a audiência, Goreng vai percebendo as suas circunstâncias e começa a estabelecer um elo de confiança com Trimagasi.

A narrativa expande pouco o conceito mas está de tal forma comprometida com a alegoria capitalista que estabeleceu que depressa se torna aliciante. Começa por recordar a saga de terror Saw (2004 - ), mas rapidamente podem traçar-se comparações mais fiéis com o filme Cube (1997), pelo orçamento reduzido, espaço confinado e personagens limitadas. É um cenário imaginário propício à equação de uma experiência social demente, mas a história não levanta muito o véu das suas intenções, preferindo deixar à mercê uma gama de possíveis conclusões.

No entanto, à medida que o tempo progride, El hoyo revela um comentário social bem definido. O banquete são os recursos da plataforma e quem está num nível superior dispõe da comida primeiro que os condenados aos níveis inferiores. Dado que a certo ponto a comida escassa, por fome e ganância dos cativos, muitos são aquele que se forçam a cometer atos horrendos, proporcionando momentos capazes de fazer torcer os mais estóicos. Para pontuar a sorte e acaso do regime capitalista, mensalmente os prisioneiros são aleatoriamente confinados a um nível diferente. Tal como na realidade, quem nasce abastado (num nível superior), é dono e senhor de mais recursos e muitas vezes não pensa no outro (aquele que está num nível inferior).

Distribuído pela Netflix, este não é o estilo de cinema que vai agradar a qualquer um, mas não deve deixar os fãs do género indiferentes. Numa década em que o cineasta Bong Joon-Ho trabalhou esta matéria com perspicácia em Snowpiercer (2013) e maior nuance em Parasite (2019), a proposta do cineasta espanhol pode soar simplista e excessivamente prática. Quanto à eficácia, isso ninguém lhe tira. É cheio de suspense quando deve, apropriadamente sujo e reflete uma versão da realidade que em plena crise global tem uma dimensão extrapolante.


Bernardo Freire
Outros críticos:
 Raquel Lopes:   7
 Alexandre Costa:   6